Nunca esquecerei a ironia que o João Leal, aqui há uma mão cheia de anos, ao passarmos por uma praia de areia preta na Ilha de S. Miguel, atirou certeira: Olha um molho de palermas a torrar, deitados num parque de estacionamento.
Saco do negro sarcasmo do João por mou de carregar nas tintas sempre que malho na carneirada estival. Não que abomine o mar, antes pelo contrário, sempre funcionou como uma reconfortante pitada na minha alma de jagodes do sequeiro. Abomino sim a poluente e torrante turba carneiral da sandes e do Ambre Solaire.
Daí que a praia é um dos meus paraísos perdidos. Perdido na aprazível memória do Portinho da Arrábida da década de cinquenta. Quando subia à serra pela mão paternal levantando coelhos a cada trôpego passo. Quando no cimo enfeitiçava o olhar naquela ferradura de mar a pisar a areia branca branca de extasiar. Quando arregalava o ouvido às histórias dos marítimos do Portinho na única taberna de serviço. Quando jurava a pés juntinhos pequeninos de criança que a rocha da Anicha era poiso nocturno de temíveis piratas. Quando a Arrábida tinha meia dúzia de asseados campistas... do Barreiro... de Setúbal... de Évora... Quando ia a pé a Alpertuche sem ver viv’alma. Quando o João do estético e honrado bar de madeira da praia acendia o petromax para jogar suecadas enquanto eu bebia gasosas de berlinde da Serra d’Ossa. Quando... quando... quando nunca mais quando!


Pois é ! E nos tempos dos pirolitos , como era aí para as suas bandas ?
Ainda se liga ao pitromax ?
Também eu sou desses tempos, e a Praia dos Coelhos, e o monte branco, e sossego transmitido pela maresia, e a caça submarina em Alpertuche! Agora: confusão, motas de água, granel, insegurança!
Velhos tempos!