
A propósito dos portugueses serem o povo que apresenta, na Europa, o índice mais elevado de posse de habitação própria, reproduzo um excerto do livro de José da Silva Picão “Através dos Campos – usos e costumes agrícolo-alentejanos”, dado à estampa em 1903. O que escreveu Picão Caldeira no inicio do século passado, não deixa de ser interessante para compreender a génese deste arreigado sentimento, pelo menos, no que toca ao Alentejo.
(...) Pondo de parte os ratinhos (ceifeiros vindos das Beiras) e pouco mais indivíduos, de encargos igualmente transitórios, os serviçais das lavouras alentejanas nascem e residem nas povoações próximas das zonas onde trabalham. As pequenas vilas e as grandes aldeias são as que fornecem maior contingente. De algumas se pode afirmar que, pelo menos, quatro quintas partes da sua população masculina, válida, empregam-se todo o ano a servir nas herdades. Andam lá pelo campo agarrados à «obrigação», mas o domicílio estabelecem-no nas povoações. Cada chefe de família tem aí o seu lar, onde habitualmente vive a mulher e os filhos. Ele em pessoa, só o utiliza quando folga e quando está doente ou desacomodado. Muitos residem em moradia sua, adquirida por herança, compra ou construção. Outros, habitam casa arrendada aos semestres ou por ano, com vencimento no fim de Junho ou de Dezembro.
Uma das principais aspirações do criado de lavoura é adquirir de propriedade uma casita na aldeia que o poupe a mudanças e a exigências e caprichos dos senhorios. Ter uns buraquinhos onde se possa alojar é o seu maior empenho. Os que conseguem enfim realizar esse propósito, quase sempre à custa de privações e sacrifícios, senão com o auxilio e protecção dos amos, tomam à casa tal apego, que só a vendem por necessidade extrema, imperiosíssima. Há exemplos de indivíduos velhos e inválidos mendigarem, tendo ainda casa sua. Se os increpam por esse facto, respondem: «Então hei-de arrancar-lhe uma pedra para comer?...» Outros, desculpam-se afirmando que não encontram comprador, que o prédio está arruinado, ect. (...)
Excelente citação, Isidoro. Já agora, é interessante que apesar de não haver mais trabalho diário na lavoura, em época de sementeira e apanha da azeitona, o Rossio de Beringel, por volta das 6 da manhã, ainda se enche de candidatos à jorna aos proprietários que ali rumam nessas épocas.
Por outro lado, o transcrito torna compreensível o facto de os habitantes desses pequenos povos terem aversão a quintais nas suas habitações! De facto, qualquer bocado de terra é logo cnsumido por um casão que servirá para um qualquer fim. Terra é que eles não apreciam dentro dos povos porque já têm muita fora deles.
Abraço
Afixado por: carlos a.a. em setembro 13, 2004 12:01 PMExtraordinário trecho
Afixado por: jpt em setembro 13, 2004 12:06 PMCompadre Isidoro(joaq...)estou de volta aos poucos e dou de caras com um dos escribas que mais claro falou da "nossa terra querida", como diz a letra do cante, o agricultor elvense (Santa Eulália) Silva Picão, esse autodidacta que conciliou sempre a lavoura com o gosto pelas coisas da cultura. Colaborou em alguns jornais da região, escreveu esse livro maravilhoso etno/antro/histórico, intitulado ”Através dos campos”, livro esse que fala sobre a vida das gentes, dos usos, costumes e tradições das terras de Além-Tejo. Vá postando mais textos do Silva Picão.
Um abraço.
Alves Caeiro
Um post de 5 estrelas!
É por causa de posts assim que este blog se vai tornando uma leitura obrigatória.
:-)
fantástico
Afixado por: PLH em setembro 13, 2004 03:01 PMA esta posta só falta o cheiro!
As palavras são as correctas, a imagem (cores, ângulos, luz...)
É!... só falta o cheiro. E é pena. Gostava do cheiro limpo a cal, terra e especiarias dessas casas.
Mesmo assim vejo-me sentado naquela cadeira ao fundo.
Um abraço,
Francisco Nunes
E o segundo livro? É para quando?
A leitura é obrigatória e tem de continuar