
Imagem de José Esmael
Violas de lata
Minha alma grita
súplicas da Mafalala em mutovanas de avós
e geme timbilas do músico de Zavala
no ritmo das blusas de saca
do negro contratado.
E tu
minha companheira de olhos tristes
vens amorosamente vens
na tua boca a melodia fraternal
e lá fora na solidão da rua prenhe de gente
a voz infrene de uma cantiga ronga
o morse angustioso de uma vida de lata.
E no meu coração de pedra
estagna o sabor da vingança
e amo a vida no minuto de esquecimento
um desejo de criança porque é uma criança
um pálido raio de lua porque é um raio de lua
a mulata da boca lúbrica na cumplicidade da janela
as tranças loiras de Miss Susie toda nua na praia
e a sumaúma dos braços da negra Margarida.
Mas agora estala bem estalados
nos dedos raivosos das cantigas suburbanas
os arames de aço da tua lata de música
que o inferno de amnésia acabou
negro de sonhos subversivos
de homem descontratado.
E deixa o cerne do ritmo
no filho de mamana Angelina
a preta que trabalha a partir tincarôsse
na Companhia Industrial do Caju!
José Craveirinha
Publicado por machede em setembro 2, 2004 01:52 AMÊ tava cá pra mim pensando que bonito seria esta terra se os poetas mandassem. Mas porra sempre que acordo parece que tô ficando mais asno porque nada muda tudo está cada vez mais igual, mais cinzento.
Afixado por: Barão da Tróia em setembro 2, 2004 10:10 AMofereceram-me este ano um livro do José Craveirinha. Gosto muito e é sempre um prazer lê-lo.Obrigada
P