agosto 28, 2004

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1.
Não entendo a luta dos ventos. Rola
uma onda daqui, outra dali. E nós,
no meio, somos arrastados
com a escura nau, duramente
sacudidos pelo forte temporal. Já a vasa
cobre o pé do mastro, toda
a vela é rasgada e dela
pendem enormes farrapos. Os cabos
cedem, e o leme...
Firmo os pés nas enxárcias
e apenas isso me mantém são e salvo...

2.
Chove a mando de Zeus, e do céu
cai forte invernia. Estão
gelados os cursos de água.

Combate o frio atiçando
o fogo, misturando
sem descanso o vinho doce
com o mel, e reclina
em seguida a cabeça sobre
uma almofada macia.

3.
É preciso não entregar
o coração ao infortúnio.
Nada lucraremos, ó Bíquis,
com tristezas. O melhor
remédio é pedir
vinho e embriagar-nos.

4.
Que alguém me ponha à volta do pescoço
um colar entrelaçado
de flores de anis e sobre
o peito me derrame
um suave perfume.

5.
Bebe (e embriaga-te) comigo, ó Melanipo. Acaso
pensas que, uma vez transposto
o largo curso do caudaloso Aqueronte, a clara
luz do sol verás de novo? Vamos, não alimentes
tamanha ambição. O rei
Sísifo, filho de Éolo, também
julgou escapar à morte. No entanto, apesar
da sua astúcia, duas vezes o destino
o fez transpor o caudaloso Aqueronte. Grande
e pesado trabalho o filho
de Cronos lhe impôs que sob a terra
negra suportasse...

6.
Humedece de vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta... Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.

7.
Bebamos. Porque havemos
de esperar pelas lucernas? O dia
tem a extensão de um dedo. Traz
as taças grandes, meu amor, as coloridas
taças. O filho
de Sémele e de Zeus aos homens
o vinho deu para esquecimento
de seus males. Enche-as
até transbordarem – uma
parte de vinho para duas
de água. E que uma taça
empurre a outra.

8.
Planta a videira de preferência
a outro qualquer arbusto.

9.
Pois contam que Aristodemo
em Esparta proferiu um dia
estas palavras vigorosas: «O dinheiro
é o homem. A nenhum
pobre, com efeito, a honra
nem dignidade se concede.»

10.
Divina Safo, a das tranças
de violeta e sorriso
de mel.

Alceu
(Poeta Grego Arcaico)

Publicado por machede em agosto 28, 2004 02:10 AM
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