agosto 24, 2004

Em carne viva

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Pelo mês de Agosto, de nove em nove anos, tiram-lhe a pele, como se os despissem da cintura para baixo. A pele que esconde uma carne viva da cor da terra que os sustem. Uma cor telúrica que sempre arrebatou os estetas. Sobre a fase alentejana da obra de Dordio Gomes, rabiscou o crítico Mário Gonçalves: “Alguém disse que a arte é a natureza mostrada através de um temperamento. Na forma convulsionada com que Dordio Gomes representa um sobreiro alentejano, tanto se sente o vigor da árvore como o ímpeto do pintor”.
E que senhora pele! Uma das matérias-primas, de origem vegetal, com um elevado potencial térmico e vedante das mais nobres que nos é dado usar.
O Alentejo sempre foi a região produtora nº 1 do mundo. Mas, salvaguardadas as devidas distâncias, a cortiça sempre esteve para os alentejanos como os diamantes estão para os angolanos. A e os, apenas serviram para inchar a opulência e alimentar as extravagâncias de uma pequena corte. Estribado nessa razão, afirmou-me, certa vez, um dos velhos empregados de mesa do Ritz Club: “Antes do 25 de Abril, aqui na casa, um só alentejano valia mais que uma esquadra inteira da NATO”. Estava a falar na cotação da cortiça no mercado da desbunda, só pode! Mais, quanto às indústrias processadoras da dita, que fossem montar negócio lá para os Montijos e Santas Marias da Feira. Mas longe, bem longe, bem fora da região de maneira a não esbandalharem o exército camponês de reserva laboriosamente construído pelos terra-tenentes, ou seja, a praça de trabalho da miséria.
Após o 25 de Abril, a fobia exorcista deu para, logo à partida, extinguir o Instituto de Fomento da Cortiça, continuando, de seguida, a encarreirar asneiras sobre asneiras, até agora. Como nota deveras hilariante, basta-nos saber serem a porra dos ingleses a esfalfarem-se contra o forte lobby das rolhas plásticas. Nós esfalfamo-nos, lá isso esfalfamo-nos mas é para eliminar a réstia legislativa que impede os patos bravos de meterem as unhas especuladoras no montado – a título de exemplo, aponto a outrora maior mancha contigua de sobro do mundo, a de Rio Frio. O incêndio da serra do Caldeirão foi a cereja em cima do bolo. Por lá residia uma das cortiças de excelência para a indústria rolheira. Equívocos (crimes públicos) tais que estão a deixar o montado entre a vida e a morte. Mais morte que vida, do montado e do Alentejo, digo eu.
Passamos a vida a balhar com a mais feia, é o que é!!!

Publicado por machede em agosto 24, 2004 12:16 AM
Comentários

A luz, a côr, a "carne viva"!! Impressionado fui ao post. Já conhecia o Blog mas agora vou recomendar. Até porque metade da família é de Além Tejo. Até mesmo Além Guadiana.
Alentejane o mais que puder porque o faz muito bem.

Afixado por: RN em agosto 25, 2004 12:18 AM

Alguem sabe onome das musicas do filme?????

Afixado por: DAlila em outubro 24, 2004 03:31 AM