Expectante, olha-se de soslaio o rigor do baralhar e do corte. As cartas escorregam suavemente pela mesa, intercaladas, uma a uma, para exorcizar o favorecimento. Com um ritual mil vezes repetido, recolhem-se na crença da combinação certa, uma a uma, lentamente, como que a forçar a ventura. Impassível a face, palpitante a emoção. O croupier da jogada, rápido e hábil, volta a primeira carta. O semblante fecha-se impassível. Na vez, assinala-se a aposta com um toque subtil do dedo na mesa ou um ciciado “estou”. O olhar, só o olhar redemoinha acompanhando o manifesto dos parceiros. O silêncio ferve. O croupier vira a segunda carta. Rodopia-se novamente o olhar sondando o deslize na hipotética perturbação dos parceiros. Nada transparece. A rapidez do calculo mental das probabilidades. A angústia do jogador de póquer no momento da decisão. A ousadia do bluff ou a segurança no óbvio. A liturgia escorre até ao voltear da quinta e última carta. O triunfo ou a derrota. A volúpia da sorte ou o acre do azar. A inflação ou a deflação na cave. O momento da descompressão e a sequente recobra da fé na jogada seguinte. Acende-se e aspira-se longamente o fumo do milionésimo cigarro. Sorve-se mais um trago.

Não gosto de jogar às cartas, mas li o texto num só folego... está magnifico!
Afixado por: Helena em agosto 21, 2004 04:09 PM