Gosto desta Estalagem! Transpira a confiança e a discrição das velhas pensões de província. O patrão é amável, solícito e possui o dom do recato como convém a um hospedeiro de existências sortidas. Para dentro de portas cheira a limpo, a lavado com sabão azul e a caiação anual. Na sóbria entrada, na companhia do pote de cobre dos guarda-chuvas e do cadeirão arte nova, um móvel estante, em mogno, sobre o qual pousam uma jarra de porcelana com malmequeres amarelos, uma caixa em madeira rendilhada para o correio e um telefone de baquelite preto com os números desenhados no esmalte do marcador redondo. Duma gaveta entreaberta, desponta um molho de antigas chaves a adivinharem-se dos quartos, da dispensa e, possivelmente, de algumas dependências do céu, ou, do inferno quem sabe? Por cima, na parede branca, um calendário eternamente no mês de Janeiro encimado por umas meigas e lustrosas vaquinhas pastando nos Alpes suíços. A porta, à direita, de intransponível reserva, dá para os aposentos do patrão. Nenhum hóspede se gaba da sua memória, talvez, apenas alguma fortuita hóspede em dia de vícios privados da gerência. Comenta-se em surdina das suas sortidas nocturnas e copos empinados em fumegantes botequins. Mas isso não são contas do nosso rosário! Pela porta da direita entra-se para um corredor, permanentemente na penumbra, sobre o ranger do soalho que solta um afável cheiro a cera fresca. Constitui este corredor a espinha dorsal da estalagem, a desmultiplicação da acessibilidade aos quartos de hóspedes, sala de estar, sala de jantar, cozinha e a um quintal forrado a buganvílias lembrando que o lugar é ao sul. Dos quartos não devasso a privança, a cada um o seu arrumo. A sala é o lugar de estar de uma família enorme mas diversa, no entanto, portuguesa de certeza a cheirar levemente a tabaco e a resmungos entremeados do contra mais os jornais da paróquia, do burgo e os nacionais a disputar a notícia ao omnipresente aparelho de TV. Da cozinha emana sempre um cheirinho a canja de galinha com ovinhos amarelinhos e a inevitável hortelã. Na porta da rua, do lado de fora, em igual serventia com a maçaneta e a fresta do correio, mesmo por cima do botão da campainha, apenas um discreto letreiro “Estalagem Weblog”.
Gosto imenso desta Estalagem!
Que prazer ler este post. Parabéns ao autor!
Afixado por: inês em agosto 9, 2004 12:49 AMÉ então uma casa portuguesa, concerteza...
Um abraço,
Francisco Nunes
Que maravilha
A forma carinhosa e familiar como o autor
descreve o lugar...que só ele sabe onde fica.
estalagem weblog
agora é que eu não percebo mesmo nada.
Por momentos, e a propósito de sanitários vazios, julguei-te assim a modos que fodido com o gerente desse blog-bordel.
afinal, e segundo sugeres, o gerente que pactuou com a usurpação do teu alentejano gerúndio parece ser um encantador hospedeiro de blogues. Amavel, rectus ... e com flores à porta.
de duas uma - ou weblog é o nome do xitole que vais abrir (e aí eu faço vénia ao teu génio de marketing) ou então isto é tudo uma grande treta.
smacks
Afixado por: jose lopes em agosto 9, 2004 10:29 PMO Eça não escreveria melhor! Lindo! Há literatura, e da boa, nos blogs de cada dia.
Afixado por: Vi em agosto 10, 2004 03:50 PM