julho 19, 2004

Ferragem curta

Há uns tempos que a pátria (cada vez que digo isto sinto-me enfarpelado numa armadura, de cruz ao peito e de lança em riste), desliza alegremente para qualquer coisa que não me cheira a que seja uma grande coisa. Os indícios estão aí à mão ou ao pé do cidadão, são estupidamente visíveis na cada vez mais baixa qualidade do elenco artístico encarregue de pôr em cena um país com um enredo minimamente palpitante.
A irreverente Ana Gomes lançou o mote: uma maioria, um governo e um presidente. Eu arrisco mais uns cobres na cave da profanação: uma maioria, um governo, um presidente e uma oposição. Trocando por miúdos: todos se merecem mutuamente.
A maioria é uma imensa maioria temporalmente adaptada a circunstancialmente pôr o dedo no ar no unanimismo do assalto ao cofre do tio Patinhas. Esquecem-se que o tio Patinhas jamais deixará assaltar o cofre, pela simples razão que é ele que mexe os cordéis do unanimismo. Esta evidência espelha-se no artolas que é agora o secretário-geral. Certamente, Sá Carneiro estará farto de meter petições aos senhor para que o autorize vir cá abaixo vergastar os oportunistas do templo. Sobre o apêndice da maioria não me pronuncio, por uma questão sanitária.
O governo, não me admira porque nada me admira desde que, pelos meus cinco anos, no Circo Mariano, vi um urso a tripular uma lambretta. Até ao seu ocaso, publicamente, a minha boca jamais se abrirá. Tenho o inquestionável direito de assistir ao grandioso espectáculo de ilusionismo em silêncio!
O presidente está preso no labirinto que o seu feitio britânico laboriosamente construiu. Ou muito me engano, ou terminará solitário os seus dias bebendo chá e jogando paciências. Nem o fantasma dissolução o estará para aturar. Roma não paga a traidores!
A oposição maioritária desatou aos tiros a ver se, duma vez por todas, abate o pai ideológico que, de qualquer maneira, já custa a destrinçar. Os gatarrões do centrão apostam em ganhar a interminável fábula contra o rato esquerdista (almejam mesmo mudar o nome do Largo para «do gato»). Entretanto vão sonhando igualmente com a ficção do cofre do tio Patinhas.
A oposição minoritária continua a reempurrar a pedra morro acima à laia de Sísifo. Os da colheita antiga imploram aos seus deuses para que tardem o mais possível em levar-lhe os utentes que restam, caso assim não seja, o quórum das bandeiras, mais ano menos ano, será superior ao dos porta-bandeiras. Os da nova colheita, infelizmente, nasceram portadores daquela doença infantil de que falava Lenine.

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(apetece-me ficar um bocado snoopy)

Publicado por machede em julho 19, 2004 01:09 AM
Comentários

Parabéns pelo Blog. Show. Visite-me

Afixado por: Ceiça Sousa em julho 19, 2004 03:41 AM

Os tipos do PS podiam contratar o JPP e o Prof Marcelo (nem que fosse a recibos verdes!) para fazerem oposição ao PSL.
Quando tivessem a casa arrumada, seriam eles de novo a oposição.
:-)
Grande açorda, esta política|

Afixado por: Marco Oliveira em julho 20, 2004 05:30 PM

bem, se estão todos mal, isto já me parece a história do recruta que marcha correcto o pelotão é que vai com o passo trocado [pois é isidoro de machede, pois é, uma pergunta que faço a mim mesmo, tão garboso era eu nos tempos de soldado instruendo, tão troca passos vou agora]

Afixado por: jpt em julho 20, 2004 08:07 PM

Análise de 5 estrelas. Só dois pequenos apartes: primeiro, o urso do circo mariano decerto tinha qualidade no seu trabalho, enquanto que estes ...; segundo, porra, nunca diga que já nada o admira, pois o conformismo dos cegos é a muleta dos que têm olho para o cofre. Pior, o cofre é nosso.

Afixado por: O Rei Vai Nu em julho 21, 2004 04:19 PM