julho 18, 2004

Tudo tem o seu tempo

Hesitei, mas aqui vai! Também esta confissão teve o seu tempo.
Há uns pares de anos atrás coordenei uma visita técnica a Moçambique na área do desenvolvimento rural. Dado conhecer os cantos à casa, estabeleci antecipadamente o roteiro das visitas e contactos que interessavam ao trabalho em causa. No entanto, a nossa delegação deslocava-se também a expensas do Ministério da Agricultura de Portugal, daí que as regras da cordialidade e de algum protocolo impunham uma visita de cortesia à embaixada portuguesa. Fomos recebidos por a, b e c e também por um sujeito do sector cultural da embaixada. Lembro-me perfeitamente de ter pensado: só me faltava mais esta de ter de aturar um manga-de-alpaca da kóltura tuga a fantasiar um filme a preto e branco. Lá fomos recebidos por um sujeito jovem e a raiar a informalidade – coisa rara nestes filmes. Cortesia para aqui, simpatia para acolá, imensamente gratos pela recepção, tome lá um CD de cante alentejano para quando tiver saudades da pátria e por aqui nos passamos após uma rodada de calorosos bacalhaus que a rapaziada tem mais que fazer. Recordo-me ainda de no fim da estadia ter telefonado para a embaixada para cumprir-mos a parte das despedidas. A secretária informou que sim senhor seria recebido pelo senhor doutor da cultura. Minha santa senhora deixe estar o senhor doutor na paz do senhor, diga-lhe apenas que vamos bazar pelo que apresentamos desde já os nossos mais cordiais cumprimentos, extensivos, é evidente, ao senhor embaixador e demais funcionários. E pumba, lá nos safamos a mais uma xaropada acompanhada de uma ou várias rodadas de bacalhau a pataco.
É evidente que comentei estes factos com alguns amigos moçambicanos, conhecedores destes meandros. Este gaijo para aqui, aquela fulana para ali, mas ó Isidoro, olha que esse artista da cultura até é gaijo bom de aturar.

A vida tem destas coisas. Há bem pouco tempo, já depois de ter enveredado pela profissionalizante via de escriba blogueiro – acho até que o Querido Paulo devia reivindicar algum ao Bagão para pagar a mesada da rapaziada -, descobri que o artista da cultura não era mais que o José Flávio do Ma-Schamba. Vale dizer que para chegar a esta conclusão, socorri-me da rede informativa que mantenho nas bordas do Índico.
E pronto, o José Flávio decidiu fechar os taipais da Loja – tudo tem o seu tempo. Reclamando-me de tóxico, mas independente, tenho a noção que perdi a dose diária do naco de prosa do Ma-Schamba. A escrita do José transpira uma paixão moçambicana lucidamente desapaixonada. O meu cordão umbilical revê-se nessa lucidez.

Um dia destes varremos uns sete ou vinte e três tintos, logo se vê?
Que as musas da fonte do Tunduru não te abandonem compadre.
Tunduru.jpg

Publicado por machede em julho 18, 2004 12:52 AM
Comentários

E não hãode abandonar, companheiro, e não hãode abandoná-lo...

Afixado por: Helena em julho 18, 2004 03:21 PM

a desculpar-me da xaropada, mas pronto para a tal vinhaça. (então e se acompanhada do tal gaspacho com caviar, aquele de repercussão índica, seria até lendário). abraço

Afixado por: jpt em julho 19, 2004 01:36 PM

Caro Machede. Já viu as malhas que a vida tece? A si conheço-o do Alandroal, ao José Flávio de muito o ler. Mas não resisti a deixar cair uma lágrima pelos encontros e desencontros na blogoesfera e no Universo. Um abraço amigo.

Afixado por: Vicktor em julho 20, 2004 08:15 AM