
Decididamente os alentejanos gostam de caracóis. É um óptimo petisco. Também não antipatizamos com os bichinhos vivos. È uma bicheza assim a modos que tipo autocaravana, nada virada para correrias e daí pouco atreita a doenças do foro neurológico. Por ventura uma das fortes razões para a sua carne ser macia.
Existem alguns alarves que, gostando de dar azo à sua acefalia galopante, são danados para tentar jocosas analogias entre alentejanos e caracóis. Graçolas, para atrasados mentais à sua semelhança, que contam alarvemente de dentuça arreganhada à boa moda troglodita.
Adiante. Sendo rapazes e raparigas assim tudo ao molho, hermafroditas portanto, é interessante que lhe atribuam propriedades afrodisíacas. No que se pensa ser o mais antigo livro de culinária do mundo «De Re Coquinaria», redigido pelo velho Apicius, constam quatro receitas de caracóis, entre elas a dos famosos caracóis engordados com leite. Leonardo da Vinci, tinha entre o seu enorme génio uma grossa fatia de gastrónomo e de príncipe dos tachos. Também ele prestou atenção minuciosa a esta rapaziada de baixa velocidade. Nas suas notas de cozinha, dedica uma ao modo de servir caracóis, apresentando inclusivamente duas sopas dos ditos.
Mas a sua glória gastronómica é, sem dúvida, da responsabilidade de Talleyrand quando pediu a Antonin Carême que os inclui-se na ementa de um jantar em honra do Czar da Rússia. Possivelmente o Czar desbundou uma caracolada à moda da Borgonha, iguaria pela qual os franceses salivam que nem buldogue. Vale dizer que os franceses são cultores da espécie que nós denominamos de caracoleta. Espécie que eu pessoalmente aprecio mas não é muito consumida aqui na planície. A rapaziada gosta de se lambuzar com o pequeno caracol português, espécime à nossa semelhança, barrigudo e atarracado.
Caracóis
Azeite
Vinagre
Alhos
Salsa
Orégãos
Caldo de carne
Louro
Sal e pimenta
Convêm deixar o gado sem comer uns bons pares de dias antes de os cozinhar. Depois devem ser infinitamente bem lavados em várias águas. Deixam então de molho em água com sal e vinagre durante umas horas. Durante este tempo é aconselhável mexe-los de vez em quando. Passadas as tais horas, lavam-se novamente em várias águas e muito bem. Panela com eles juntamente com água, azeite, alhos (dentes inteiros), salsa, pimenta e o louro. Salgue levemente. Após ferverem um pouco, deite o caldo de carne e os orégãos. Enquanto fervem vá retirando a espuma com uma escumadeira. Por fim corrija o sal.
Caso queira beneficiar das suas propriedades afrodisíacas, seja contido nas cervejolas ou no vinho branco.
Confesso que não corro (só pode ser ironia)atrás desses caravanistas, no entanto, se estiveram a jeito... lá terá que ser! Quanto à contenção no néctar por causa das outras propriedades, o melhor é seguir o teu conselho não vá haver alguma negaça...!
Um abraço.
Um prato de caracóis é dos petiscos que mais gosto. Infelismente desde que à 6 anos resolvi vir viver para Aveiro, é algo que não existe aqui. Nem sabem fazer. Eu chego a crescer água na boca so de pensar nesse petisco. Filha de pai algarvio e mãe alentejana é um duro castigo para uma alfacinha habituada a alguns sabores não os poder ter aqui. Que saudades do final de tarde a comer caracóis com uma bebida fresquinha a acompanhá-los. Fica a receita, Espero conseguir um café da zona a confecioná-los. Agora têm de me ensinar a limpar caracóis...
Afixado por: Helena em julho 18, 2004 03:25 PMAcrescentaria a esta tua receita dos animais lentos uma afirmação de João dos Santos onde ele considera que os caracóis são estúpidos por, exactamente, não terem sexualidade ...
abraço blogueiro
Aqui, em Lisboa, a época do caracol acabou. Nos últimos dias, um par de visitas a casas onde o bicho é bem tratado, revelaram-me a triste realidade: o auge já passou, o caracol começa a sair fraco, e agora só para o ano. Triste sina, a do adorador de caracóis. Dois meses de deleite e dez de angústia.
Afixado por: CMF em julho 19, 2004 12:49 AMSó de ler já fiquei com água na boca. Já foste ao Palácio no Largo de Alcântara.
Afixado por: Fernão em julho 21, 2004 04:24 PMApreciei muito, inclusivé a prosa! No entanto, queria que me esclarecessem uma dúvida, se possível: já li em alguns sites que basta estarem uns dias sem comer para os ditos ficarem prontos a ser cozinhados; ou seja, não precisam as famigeradas lavagens abundantes... Em que ficamos?
Obrigado
Helena, Helena... caracóis há-os em todo o lado é preciso é procurar :). Também sou de Aveiro e adoro caracóis, desde os pequeninos aos maiores. Um concelho para matares a tua fome de prazer. Na praia da Vagueira existe um pequeno Bar/Restaurante com muitos petiscos e os caracóis são um deles, chama-se Alemão... mas se estás mesmo numa de apanhares e fazeres tu os caracóis ao longo da ria na época de calor consegues apanhar muitos caracóis em últino caso podes comprar no Hipermercados :(, quanto a receitas procurar um pouco na net, é fácil de encontrar
Afixado por: Gustavo em setembro 6, 2004 12:58 PM