julho 11, 2004

Desenjoo da carniça...

Preceito culinário da moirama algarvia. Para deglutir frio, daí o estratégico posicionamento desta belíssima comedoria nos dias calmosos desta época de estio. Raia de alhada ou raia alhada, grafia à escolha do freguês que lhe mete o dente e dela se apaixona. Paixão e assolapada pois claro, que é disso que se trata quando um manjar me cai no goto. Calhando pensavam que só distribuía mesuras pelas obras-primas das outras artes. Era o que faltava! Os estetas das talhas e das sertãs calam fundo na comoção deste comedor que se preza. Que obra-prima maior que uma performativa amesendação com pomadas e iguarias de estalo.
Vamos então ao processamento deste aerodinâmico seláquio da família dos Raiídeos que, segundo os especialistas, não deve ser abatido entre Maio e Agosto por mou de algum sabor menos consentâneo com a sua honradez. Tarde piaram os ditos quando o achatado bicho jaz inerte na bancada da oficina. Esperemos então que a haver desgosto não seja coisa de monta?

Raia
Alguns dentes de alho
Azeite
Vinagre
Batatas
Sal grosso (de preferência flor)

A raia é bicho que necessita de tratamento paciente e cuidado, daí uma lavagem aprimorada em água corrente. Escorre-se e salga-se em abundância ficando queda por um par de horas. Coze-se a raia em água fervente durante não mais que cinco minutos. Deixa-se esfriar e desfia-se às lascas. Cozem-se as batatas com casca, quando cozidas arredam-se, arrefecem, pelam-se, cortam-se em cubos pequenos e deixam-se estacionadas. Esmagam-se os alhos com a casca e refogam-se levemente no azeite. Mistura-se este leve refogado com um farrapinho de vinagre e meia dúzia de colheres de água da cozedura da raia. Numa travessa bota-se a raia desfiada misturada com os cubos de batata, mistura esta que se rega com o molho. Corrige-se a salinidade.
Raia.jpg

Caso não tenha uma vetusta alfarrobeira, serve igualmente outra árvore de boa sombra para amesendar. Não vale a pena estar a ensinar o pai-nosso dos aquecimentos do palato com base numas entraditas carnosas e lácteas, adubadas por uns alegres sorvos numa pomada branca mais para o seco. Acolite o assunto Raiídeo de um excelente branco (já não dou para o peditório de aconselhar pomadas porque cada um sabe as linhas com que se cose). Esgueire-se reconfortado e de mansinho para uma fatia de melão casca de carvalho. Café, um??? aveludado medronho e coisa e tal para o desbaste de um puro ilhéu de azulado e serpenteante fumo – uns fazem-nos e outros fumam-nos, como dizia o Júlio Carrapato!

Publicado por machede em julho 11, 2004 02:09 AM
Comentários

Com um dia de atraso (desculpas)daqui, da cidade esburacada pelos que vestem fatiotas às riscas, envio as minhas felitações, pelas ideias de evasão, pelas memórias telúricas, pelas sugestões de comezainas e até pela pândega, parabéns.
Um abraço.

Afixado por: Albardeiro em julho 11, 2004 01:57 PM

Claro que as "felitações"! são, obviamente, um cumprimento de felicitação; é uma pequena nuance... que tem o nome de erro ortográfico. Calhando foi a merda do teclado!
Força.

Afixado por: Albardeiro em julho 11, 2004 02:04 PM