QUINA
- TRÊS ELEGIAS BREVES
1.
Na do tempo, breve
foi o trajecto. Nele coube,
porém – pão e vinho -, a intensa
alegria que, em redor,
generosamente partilhavas. Na tua,
principia a nossa morte.
2.
Tinhamo-lo, quiçá, pressentido.
Nunca de forma tão súbita e brutal.
Julguei voltar à alegria do teu convívio.
Engano. Regresso ao teu lugar,
irremediavelmente vazio, ao eco
desvanecido dos teus passos, onde os nossos
se perdem também, ao silêncio
que nos legaste. Este, o lugar de encontro.
3.
Nos caminhos da sua inescrutável
sabedoria, dá Deus com uma mão
o que, com a outra, retira. Da direita
colhemos infinita amizade, só para
que a esquerda, encurtando-nos
a vida, exígua demais a tornasse
para que, numa ou noutra, ambas
coubessem. Perca-se, então, a vida.
Só a nossa morte, da tua nos libertará.
(do livro “O monhé das cobras” de Rui Knopfli)
Publicado por machede em junho 24, 2004 01:57 AM