Jogos rituais ritos aldeãos. Decifrar a vida. Estimular a fertilidade. Assegurar a coesão comunitária. Tornar suportável a morte. O combate pelo poder. Demarcação de espaços masculinos femininos. Demarcação de espaços sociais. O trabalho. Acordeão baile namoro. Casamento enterro. O “Cântico à ordem das Oliveira”. “Sanctu Christii”. “Corpus Christi”.
O cante manchego extremenho alentejano andaluz algarvio ibérico mediterrânico profano e religioso uno e diverso de onde vem?
Construção do barco os artesanais botes pateiras chatas as “modernas” lanchas os remos “la percha manchega” a longa vara de choupo o impulso construção das artes de pesca o tecer das redes artes fixas artes móveis “la rijaca” o mítico tridente “o tenedor” de cinco pontas dos antigos pescadores de Las Tablas a “fisga” ou arpão de dentes de ferro a “meia lua” dos velhos pescadores do Baixo-Gaudiana a pesca ao muge e à lampreia noites de verão as águas do rio o barco o arpão o “pangaio” à proa onde se anicha o “candeio” olhos nocturnos do pescador.
Abegão da minha Aldeia “charrete” trimbolim carro de parelha arado de madeira trilho ancinho forcado. O cheiro reconfortante das aparas de madeira no chão da oficina a magia das ferramentas nas tuas mãos calosas.
Roda de oleiro mãos de oleiro. O barro a argila vermelha. O utensílio feito arte a arte feita utensílio. Cerâmicas pintadas ibéricas cerâmicas envernizadas avermelhadas romanas o vidrado e o não vidrado a policromia o verde e o manganês a cor do mel a pintura a branco o Oriente. A tijela as malgas talhas e ânforas cântaros e barris a telha e o tijolo.
Colher as cores da terra do céu das águas argamassa da vida colorido da vida os dias da Criação.
A navalha. Pastores arte-pastoril. O tarro de cortiça as cornas de chifre as dedeiras e os canudos de cana as tripeças de madeira,
trabalhar a infinita solidão do tempo o teu reino de papoilas e ilusões de fantasias adiadas.
Os trastes a cor da madeira a madeira. Azinho e choupo e loendro ou aloendro,
a alegria possível transgressora o dia do casamento.
A cestaria. O cesto. Cabanejos alcofas canastras tabuleiros. A escolha do material o entrançado a funcionalidade. Harmonia. Podemos evitar a vulgaridade.
Ferreiros da nossa infância. Os grandes e mágicos aros de ferro rodas. O fogo. Ferreiros cutileiros chocalheiros. A foice o machado a enxada as facas as navalhas. Estanho e cobre ferro-fundido ferro-forjado. A espada. Vencer o medo a insegurança a desordem.
Petra. Pedra. Calçada fontanário chafariz lembras-te. Mós moinhos-de-marés moinhos-de-vento. O tempo o que é o tempo. As muralhas os templos as prisões os sarcófagos. Maços e cinzéis ponteiros. O destino. Podemos esculpir o destino?
A lã e o linho. Cultivar cardar lavar branquear tecer. O teu corpo. Branco beje castanho-claro castanho-escuro. Tecelões e tecedeiras tosadores cardadores e fiandeiras pisoneiros e tintoreiros.
Bordados bordadeiras. Artesãs de alinhavados. Tapeceiras. Tela de linho e ponto-cruzado medalhão-central Pérsia. Bichos símbolos. Lendas. Mais reais que a realidade. Um dia saberás porquê Se lá chegarmos.
Peleiro da nossa Aldeia. Cidade deserto. Pelame. Esfolar salgar enrodinhar lavar-com-sabão curtir enxugar raspar-com-faca raspar-com-pedra-pomes enxugar ao sol.
Tingir as cores da terra e do céu as cores,
as botas e os botins das ceifeiras os casacos os pelicos e os safões o correame os alforges as tendas,
a Saragoça e a sarja das tuas calças coletes e jaquetas a chita e o riscado das tuas saias e blusas xailes e lenços de enfeitar e proteger,
frio o ardor do sol porque choras Hânelá?
(do livro “Adeus, Azules” de António Murteira)

Ó Isidoro você sendo um ateu emperdernido (demonstra-o) acredita em fadas?
Adeus Isidoro.