junho 15, 2004

Ziguezagueando nos calcanhares do tio António

Para um número substancial caçadores, não há muitos anos, digamos trinta quarenta, a prática da caça era uma conjugação de prazer e aconchego no orçamento familiar. Na casa dos meus avós paternos a existência de peças de caça na salgadeira, lebres e coelhos, a par do porquinho da matança, significava a abastança de carne para o dia a dia.
Caçar para comer, era o convénio com natureza estabelecido pelo avô Mário, pelo tio António e por tantos outros, da boca de quem, ainda de calções, ouvi extasiado contar as façanhas cinegéticas. Na condição de mochileiro, de bornal a tiracolo, com um imenso prazer estampado nos olhos escancarados, lá ia, ziguezagueando nos calcanhares do tio António convicto da importância do meu papel no sucesso da jornada. Igual prazer sentia, com a anuente confiança e cumplicidade dos adultos ao participar na preparação da logística para a próxima caçada. Tenho por certo do indisfarçável orgulho que o tio António nutria pelo meu interesse na caça. Aos seus olhos representava a garantida sucessão do nobre vício na família.
Ainda hoje recordo o cheiro peculiar que se desprendia da pólvora nos serões gastos a atacar cartuchos. De olhos vendados seria capaz de retroceder na pista da vida atrás desse inesquecível cheiro. Eram noites povoadas de um universo magnífico de produtos misteriosos, pólvora, escorvas, cartuchos, buchas, e o inevitável chumbo de vários calibres, tudo isto embalado em caixas de cartão de diferentes tamanhos e cores. Depois, era uma panóplia de máquinas e outros artefactos. Agradava-me sobremaneira a balança de precisão e a maquineta de calandrar a borda dos cartuchos.
Com a atenção e a finura de um ourives, seguia aquele ritual mágico de gestos precisos e cautelosos, onde nem sequer a conversa tinha lugar, tal era a concentração. Na adiafa do serão, enquanto o tio António oleava a espingarda eu limpava e arrumava as maquinetas esperando pela recompensa de ataviado com a cartucheira, a carregar de munições. Era um final em glória no sonho de me transmudar num temível caçarreta com um enorme molho de troféus à cinta.
Na véspera mal pregava olho, tal era a excitação, só comparável à dos cães. De madrugada, ainda pelo lusco-fusco, lá começava a caçada no meio de indescritível odor a terra e erva húmida e uma serenidade apenas rasgada pelos passos decididos e, aqui e ali, pelo latir dos cães, entusiasmo canino que era repreendido a meia voz.
Repentinamente o cão parava, hirto, e a uma ordem subtil de saída, um voo rápido em arco, um, dois tiros, e o arco quebrava-se num baque surdo. Uma corrida ao sítio do baque, o faro a trabalhar e o regresso triunfante com a peça abocanhada suavemente. Um breve afago e uma palavra carinhosa pelo rigoroso cumprimento da tarefa e uma alegria incontida feita de latidos e abanos de cauda.
A altura do sol e o relógio da barriga determinavam a folga para a merenda. Do bornal aberto saíam as vitualhas sólidas de comer à mão. Umas goladas do cantil, quando não da fonte ali entre as silvas, e enregávamos para a tardada, fase que já não me entusiasmava tanto. Decididamente, o deslumbramento estava nas manhãs!
Afinal, acabei apenas caçador no prato. Possivelmente para grande desgosto do avô Mário que certamente continuou a alimentar o vício, lá, no campo das caçadas eternas. Hoje, se ainda por cá estivesse, daria com certeza razão ao neto. O acto de caçar tal como ele o entendia, não existe mais! É apenas mais um grandioso nicho de mercado, com um exército de consumo em perfeita desordem que atira a tudo o que mexe. O avô Mário, envergonhado, arrumaria de vez o ferro.

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Caça, a matéria-prima da conversa culinária de hoje, são rolas senhor, elegante ave migratória, abundante (salvo seja) em Portugal, de Abril a Setembro, desandando depois para as Áfricas. Rolas que tradicionalmente são o motivo de abertura da época venatória.

Rolas com arroz
6 rolas
4 chávenas de arroz
½ linguiça
azeite
alho
1 folha de louro
1 ramo de salsa
sal

Depene as rolas com rigor e chamusque-as. Abra-as e corte-as em pedaços não muito pequenos. Num tacho de barro, no qual previamente verteu o azeite, refogue levemente os pedaços juntamente com o alho picado, a salsa, o louro e a linguiça cortada às rodelas. Deite neste preparado a água suficiente para o cozimento da carne e do arroz, que deve ficar bem molhado. Corrija o sal. Sirva em travessa com uns rabanetes a enfeitar.

Ataviada a mesa com um pano branco e guardanapos da mesma igualha, loiça, copos e as restantes alfaias, complete o espaço cénico com a azeitoneira, o pão de trigo, a travessa com o arroz de rolas e um tinto leve como o seu voar. Honremos o momento!
Uns pastéis de toucinho de Arraiolos, docemente empurrados por um digníssimo Moscatel de Favaios, é aconchego mais que suficiente para o sobre.
Cafézinho do comendador de Campo Maior e uma respeitável aguardente a fazer a boca para um puro dos Açores.
Que o Abade de Priscos nos zele pela digestão.

Publicado por machede em junho 15, 2004 04:52 PM
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