junho 09, 2004

Grátis às damas...

- Com estes dois que a terra há-de comer, eu vi!
O Silva dos Plásticos já tinha avisado que a coisa deveria ser completamente absolutamente espiolhada ao milímetro. E quando o Silva dos Plásticos coloquiava, o assunto era sério, seriíssimo. Até a Genoveva do lugar de hortaliças para quem um tostão era um tostão feirava um dia rasinho de dar fé a tudo quanto luzia no rossio. O Chicha Marrana jurava a pés juntos que eram favas contadas, nem que fosse à custa de literalmente escaqueirar o mealheiro da mana, mas belamente haveria de se lambuzar de pasmo. A taberna do Hipólito pitróleiro batia a semanada com a porta nos gatos, coisa que incomodava a freguesia de dias inteiros a escorropichar copos de cinco e a puxar lustro aos bancos corridos. Mas o Hipólito não vergava, e era vê-lo na barraca de comes-e-bebes que apresenta-se a gaja com as mamas maiores a dar despacho a um batalhão de sagres pelo gargalo, intervalando garfadas de sardinha assada deglutidas à velocidade de um cometa. O Pé de Ginja desarvorava do bairro mal nascia o sol e levava o santo dia mancando entre o Poço da Morte e o carrossel Alverca. Na missa domingueira o sacristão de ocasião corria pelo corredor lateral até à linha de fundo, centrava, e, repentinamente, num arreganho de ponta-de-lança, o prior mandava o sermão para o fundo das redes do fiel rebanho que conivente com o rápido despacho desandava alegremente para o zaronzel da feira. Era verdadeiramente um fartote de animação.
- Hoje, pelas nove horas da noite, o Circo Mariano apresenta um magistral espectáculo com entrada grátis às damas.
A partir daqui tudo era possível. Com os beiços besuntados de algodão doce e os olhinhos mais arregalados que um mocho, dei fé da tenda onde cabia um mundo de fantasia, um mundo que esticava para lá da rábula do palhaço pobre e do palhaço rico. Da trapezista rechonchuda e do contorcionista com costelas que mais pareciam teclas de piano. Do leão desdentado e do macaco macaco. Um mundo tão magistral em que até o urso sabia andar de mota.

Mariano.jpg

(à laia de homenagem à minha Feira de S. João que contribuiu imenso para alargar os horizontes da minha meninice)

Publicado por machede em junho 9, 2004 03:12 AM
Comentários

Em todas as meninices dos agora kotas do interior,é o maior espectáculo do mundo que permanece nes nossas mentes.E é por isso , que ainda a garganta se aperta e os olhos humedecem ,ao ouvir o saxo mal tocado , o clarinete desafinado,a caixa desengonçada ,anunciando pelas ruas da aldeia , " meninos e meninas,senhores e senhoras , logo à tarde , matiné , macacos,cobras , . . " . E depois era a manha para arranjar os cinco paus para o bilhete .
E havia sempre um avô !

Afixado por: Jorge Raimundo em junho 9, 2004 08:15 AM

Do algodão doce, da massa frita e do torrão de Alicante. Dos frangos e sardinhas assadas com pó do terreiro. E do circo Mariano que fazia as delicias de pequenos e graúdos. Com o grátis às damas é evidente!

Afixado por: Ana em junho 9, 2004 07:56 PM