junho 06, 2004

O latifúndio marítimo

Ao obrigatório banho nas gélidas águas da Arrábida, contrapunha com subtileza o bluff infantil: estou cheio de febre. Tentava assim subverter o motivo principal das férias familiares - ir a banhos. À parte desta tortura diária, toda a restante vidinha era um fartote de novidades. O excepcional gozo de repentinamente passar a ser residente numa aldeia de tendas com vista para o mar, ali, em pleno areal da Arrábida, tornava-me num Onassis de calções. Completamente regalado, percebi que afinal o mundo ia muito para além das muralhas de Évora. Que afinal o mundo também tinha humanos com outros costumes, entre os quais, a usança despreocupada de diminutos fatos de banho que, positivamente, deixavam em transe o cabo de mar, dedicado zelota da pudica moral salazarista (a última parte percebi mais tarde). Vim depois a perceber que as despreocupadas banhistas vinham de uma terra na qual a sacristia não fazia lei e que os ditos fatos eram, nem mais nem menos que os famigerados biquinis. Assim, candidamente, mas com os olhos mais abertos que um mocho, assistia aos primórdios do turismo balnear.
Continuando na arqueologia balnear. Na década de cinquenta, o acesso a férias e na praia, era desfrute para uma restrita meia dúzia, mas o meu bom pai em atenção aos benefícios do iodo para a saúde das crias, lá ia de chapéu e petição (em folha de papel, azul, de 25 linhas) na mão, pedir a autorização para acampar a S.Ex.ª o Duque de Palmela, dono proclamado da Arrábida aquém e além mar - ditames do tempo em que era perfeitamente normal que o latifúndio também fosse marítimo.
Depois, já moço opinioso e de buço, mochilei as férias à boleia pela costa alentejana. Não era grande a viajem e as gentes continuavam a ser campaniças, só que da borda-d’água. O mar, esse, continuava a arrepiar os ossos e os tomates minguavam que nem dois berlindes.
Mais tarde percebi que, ao sul, havia umas águas tépidas que eram um enlevo. E assim descobri a terra dos homens mais tisnados que os meus. Terra que, por troca de oliveiras e azinheiras, tinha amendoeiras e figueiras, em que as casas igualmente brancas e de taipa, tinham açoteias em vez de telhados, e as chaminés eram redondas em vez de rectangulares. Era um sul mais sul e ameno que o meu, mas onde o pão continuava a ser de trigo. Afinal, não estava assim tão longe de casa como tudo isso!
Hoje, passado por um ror de anos e mau grado o rumo que, durante esse tempo, os homens, insensatamente, permitiram para as terras do Gharb, continuo-lhe estranhamente fiel. E volto, volto sempre que posso, tal como neste Agosto de 00, mais que não seja para pescar e desfrutar do doce remanso das refeições, ali, no pátio, ao lado da casa e da cisterna, debaixo da velha alfarrobeira. Ir à praia, só pela certa de não me inquietar com o frenesim da turba a torrar. Resta, trocar-lhes as voltas e cumprir o papel da formiga no carreiro que andava em sentido contrário.
Insistindo no regalo da mesa debaixo da alfarrobeira. A amesendação e a respectiva nomenclatura culinária, estão apenas à distância do sinónimo: o gaspacho, passa a arjamolho; as açordas, são a algarvia ou a de petinga; as sopas, são de bicheza campestre ou marítima e roçam a raia da infinidade; o ensopado, é o de galo; as migas, são de conquilhas; os cozidos, são de grão, de milhos ou de repolho; a perdiz, é à serra de Monchique. Depois, há ainda um corrupio de novidades com ingredientes filhos doutras necessidades, que passam pela batata doce, pela farinha de milho, e pelos mariscos e peixes do mar que é pródigo.
A presente escrevinhação, permite-me eleger duas comedorias de que gosto particularmente.

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Canja de conquilhas
1 kg de conquilhas
4 punhados bem cheios de arroz
0,5 dl de azeite
2 cebolas
2 ovos
sumo de limão
1 molho médio de salsa
sal

Deixe durante 4 ou 5 horas as conquilhas de molho em água e sal. Coza-as em lume forte, retire os bichos das cascas e coe a água da abertura. Noutro recipiente deite o azeite, a salsa e a cebola picadas e refogue até alourar a última. Junte a água das conquilhas ao refogado e deixe ferver um pouco. Junte o arroz. À parte, misture as duas gemas de ovo com o sumo de limão. Imediatamente antes de arredar a canja, junte o creme de ovo e limão, mexendo sempre. Deixe ferver mais um pouco, corrija o sal e sirva quente.
Tradicionalmente usam os bichos das conquinhas para outros afazeres culinários, que pode ser a confecção de pastéis. Eu junto-os à canja aquando do creme de limão e ovo.

Ensopado de Galo
1 galo
¼ de toucinho de porco preto
0,5 dl de azeite
1 kg de batatas
2 cebolas
3 dentes de alho
cravinho
1 pitada de colorau
vinho tinto q.b.
1 folha de louro
1 ramo de salsa
meia dúzia de grãos de pimenta
sal
pão para sopas

Arranje o galo e parta-o em bocados, guardando igualmente os miúdos. Num tacho de barro, deite o azeite e frite ligeiramente o toucinho que entretanto cortou em tiras finas. Junte o resto dos ingredientes, picando a cebola e o alho e misture-os bem com uma colher de pau. Adicione o vinho e deixe ferver ligeiramente. Deite os bocados de galo com os miúdos. Deixe cozer lentamente em lume brando e acrescente água, sempre que necessário (ou só vinho). No momento oportuno da cozedura (tenha em atenção o tempo de cozedura da carne de galo), deite as batatas partidas em cubos. Rectifique os temperos.
Sirva, vertendo o caldo para uma terrina onde previamente aconchegou o pão fatiado. Em travessa à parte, sirva a carne e as batatas.

E pronto, o assunto está nos conformes. Basta cuidar da amesendação e respectivos assentos, tendo o cuidado para que a nobre tarefa da mastigação se processe em ambiente a condizer, ou seja, no pátio de uma casa algarvia (das próprias) e debaixo de uma vestuta alfarrobeira.
Para os primórdios do acto, não ficam mal uns carapaus alimados entremeados por uns goles de branco maduro e que pode perfeitamente entrar pela canja adentro. Com o ensopado, mude de tércio, e sirva um tinto leve e macio. Após um competente intervalo, ataque uns dons-rodrigos ou uns figos frescos.
O cafézinho deverá necessariamente ter como escolta um medronho daqueles aveludados que ainda se fazem nos contrafortes da serra, com verdadeira sapiência.
Goze as férias a sul do sul com natural sustento.

Publicado por machede em junho 6, 2004 12:24 PM
Comentários

A saborosa comida do sul em contraste com a insipida comida do norte. Nem mais, as crónicas apaixonadas dum homem do sul.

Afixado por: Célino em junho 9, 2004 02:30 PM

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David Taylor

Afixado por: David Taylor em julho 15, 2004 01:44 PM