junho 02, 2004

Putos de cá

Ontem foi o dia da criança. Nunca tive grande pachorra para o dia disto e para o dia daquilo. No dia reservado somos muitíssimo bonzinhos para o feliz contemplado, nos outros 364 sacudimos a água do capote. Nunca me deu grande jeito esta forma de branquear a má consciência. Recorda-me o dia reservado, pelos benfeitores do antigamente, para os pedintes lhe baterem à porta (na porta de serviço, tá a ouvir!), afim de aliviarem os remorsos com uma quarta de toucinho rançoso e um meio pão a dar para o duro. Lembra-me a generala do movimento nacional feminino, D. Supico Pinto, na tarefa da caridadezinha pelos hospitais da desgraça, a entregar maços de aerogramas e outras bugigangas a magalas amputados da guerra colonial. Traço igualmente um paralelo com o actual filme da beata da Casa Pia que, por obra e graça do santo Bagão, só agora descobriu o drama dos seus meninos e, na busca da redenção, atafulha-os de bitoques e coca-cola, como confessou no noticiário de ontem – trabalha lá há uma vida e, que eu saiba, nunca antes abriu o bico.

Mas a propósito dos putos de cá. Não somos só os cotas na bicha do portão da quinta das tabuletas, também temos jovens que vivem 365 dias por ano com a trepidante alegria dos putos. E, já agora, putos feitos a régua e esquadro!
putos.jpg

Publicado por machede em junho 2, 2004 12:15 AM
Comentários

Também acho uma violência alterar o regime alimentar de um puto habituado a café e pastéis de Belém.

Afixado por: António Carrilho em junho 2, 2004 10:11 AM