É uma constante a interrogação e a opinião divergente, mesmo entre os entendidos, no que à história do sul da península diz respeito. E a velha querela volta, de tempos a tempos, à tona da inquietação. Influência muçulmana ou influência cristã. À laia de exemplo, no que ao nosso sul diz respeito, recordo a latente guerrilha opinativa sobre os fundamentos e influências que modelaram o cante alentejano. Uns defendem a dama do cântico gregoriano, outros, uma dama de raiz mais arabizante. Possivelmente, muito possivelmente, na minha condição de leigo, disso estou convencido, para além da progenitura una, foi criado a pé descalço nas ruas de uma vizinhança colorida e de cantadores.
Com os tapetes de Arraiolos, a altercação opinativa tem ecos semelhantes. Monjas artífices, ou artífices mouriscos. Serenas oficinas conventuais, ou fervilhantes ruas coalhadas, porta sim porta não, de bordadoras ajoujadas em rústicas cadeiras de buínho. Duma coisa não restam dúvidas, a avó sabedoria da tapeçaria está reconhecidamente nas margens sul e este do mediterrâneo. Contra isso batatas! Como, ainda hoje, vislumbramos à saciedade por esse Marrocos fora, um labor tintureiro com usança de covas análogas ao que a arqueologia destapou recentemente na Praça de Arraiolos. Que os sábios e o carbono 14 cumpram a sua tarefa, e dela nos dêem vaia!
Da ideia ao tapete há uma obra manipulada. Obra que vai do tosquiador à bordadora. Epopeia que vai do tosquiar da lã até ao cose cose da agulha pelas mãos instigada. Das mãos, do contributo de muitas mãos anónimas, mãos de trabalho e de ternura, mãos desembaraçadas e também mansas, todas seguras e obrigatórias, ainda que umas rudes e outras mais delicadas. Umas, tosquiam, cardam, fiam, lavam, dobam e tingem. Outras, bordam maravilhas!
Os Tapetes de Arraiolos são uma das mais belas homenagens às mãos laboriosas!

Sem pruridos nem remoques.
Dos muçulmanos ficaram tantas e tão boas , passando pelas manufacturas , engenharias , agriculturas , feições de gentes , interiores e exteriores .
Podemos estar no carreiro contrário ,fora de moda ,mas de certeza que estamos a defender a verdade dos nossos genes.
Continuo a fazer a barba todos os dias , ao espelho ! Olho-me , sorrindo,. . . ainda bem que não sou louro nem tenho olhos azuis!
Ontem tive uns afazeres lá prás bandas de Arraiolos, aproveitei e dei umas voltas pela Vila e nã vi monjas. Vi sim as tais bordadeiras de porta em porta.
Uma achega, o que variou, foi o tema bordado nos tapetes.
Na vinda pra Portalegre virei-me prá mulher e disse-lhe:
-Deixa-me cá meter aqui pelo Vimieiro a ver uma coisa.
-Que coisa?
-Depois digo-te.
Voltas e mais voltas pelo adro da Igreja, e nada, pensei para comigo:
-(deveria ter perguntado, como quem não quer a coisa, aquando dos afazeres por Arraiolos).
O alentejo é isso mesmo, fruto e produto de dualidades, de confluência de rumos, do norte e do sul, cristão e arabizante, da terra e dos mares.
Nota-se no cante, nos tapetes, na religiosidade, nas igrejas e mesquitas, nas relações sociais, na estruturação dessas relações, na organização do território, nas relações culturais, no seu aproveitamento direi judaico-cristão.
O bonito desta região é que temos alma e povo, voz para o cantar e tapetes para descansar.