maio 27, 2004

Postal de Boas Festas

Ao dar a volta a uma tralha esquecida numa gaveta, dei de caras com esta preciosidade. Um postal de Boas Festas produzido e realizado pelo artista plástico Pedro Portugal, no ido ano de 96 do ido século, para a ACOS – Associação de Criadores de Ovinos do Sul – no âmbito do projecto “Além da Água” - Beja. No verso reproduz uma frase que, na altura, trespassava a ideia da maioria dos alentejanos: Esperando pela água do Alqueva.
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E agora que aquilo está raso de água? Pescamos, tomamos banho e vemos passar os alarves dos motonautas. Dizemos que o clima se está a alterar por mou dos nevoeiros. Calhando um inverno destes ainda nos sai na rifa o D. Sebastião. Assistimos a uma danação tremenda entre autarcas, manda-chuvas lisboetas e cá da província, especuladores, empreiteiros e outros empresários de minudências, por causa do ordenamento que está ordenado demais e precisa ser desordenado. Hotéis, feiras de barcos e ski, condomínios fechados e abertos, nadadores salvadores, achigãs grelhados e de escabeche, ancoradouros, restaurantes, casas de alterne, cursos de marinheiros de costa, aldeias de água, lagostins vermelhos, toneladas de megawatts (vá lá sempre poupamos no pitróli)... e mais um formigueiro de idiotas a bolar ideias para sacar uns patacos à má fila.
Desculpem lá qualquer coisinha, mas então aquilo não era fundamentalmente para impulsionar a agricultura alentejana. Bem sei que há já uns quilómetros de canais principais e secundários, umas estações de bombagem e mais umas infraestruturas ligadas ao assunto da rega. Bem sei que há muitos mapas, cartas, levantamentos, planos, programas e quadros estatísticos. Sei igualmente que de vez em quando aterram uns helicópteros que trazem no bojo uns papagaios, que papagueiam mais umas afirmações, juras, promessas e outras bocas de circunstância e bem parecer. O pagode bate palmas, bebe e deglute uns brancos frescos e uns canapés servidos por uns gajos fardados à maneira que aterraram igualmente sabe-se lá de onde, vê abalar os ditos papagaios fazendo reverências, de costas, até à portinhola do dito voador, tira a gravata, despe e arruma o fatinho, e espera sentado até ao próximo zaronzel de Mercedes, helicópteros, batedores da gnr, bombeiros, câmaras de tv, palanques, fitas, tesouras e microfones para os discursos. Sei igualmente que na entrada de Beja há uma tabuleta envergonhada que diz COTRE – qualquer coisa como centro operacional de tecnologias do regadio... nem lá quero ir para não me passar dos carretos... certamente iria encontrar uma administrativa sonolenta... muitos mapas nas paredes... uma telefonista entediada porque o artefacto não toca... um engenheiro coçando a micose e um subdirector de passagem... os outros técnicos estavam ausentes em trabalho de campo.
Desculpem lá mais qualquer coisinha, mas o que é que vamos produzir para além dos achigãs? Com quem? Com que formação? Com que tecnologias? Com que associativismo? Com que redes de armazenamento, distribuição e comercialização? E quem é que são os potenciais compradores?

O Pedro Portugal, agora, faria seguramente um postal com a menina e a ovelha caniche, rebocadas por um gasolina, a andar de ski.

Publicado por machede em maio 27, 2004 01:27 AM
Comentários

Não é de agora , foram sempre os de fora , que trataram os problemas alentejanos!
Recorde-se o elefante branco de Sines , calhando , agora temos a Moby Dick.

Afixado por: JORGE RAIMUNDO em maio 27, 2004 08:21 AM

Epa, então e os campos de Golf?
Não vai nada, nada, nada?
Urra, urra, urra.

Afixado por: António Carrilho em maio 27, 2004 08:13 PM

E eu que pensava que só os ambientalistas é que viam a luz!
Fico contente por perceber que algumas pessoas, ditas normais (não ambientalistas, já terem percebido que o Alqueva não é mais do que um capricho político.

Afixado por: Carla Janeiro em junho 3, 2004 11:41 PM