maio 23, 2004

De relance, o Alentejo

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Um céu abafadiço, um mar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem da esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
Conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
As casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio de adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.

Jorge de Sena - 1950

Publicado por machede em maio 23, 2004 02:16 AM
Comentários

Boa 'bandeira'!

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em maio 23, 2004 05:59 PM