Sempre tive uma mágoa imensa de ter umas cordas vocais que mais parecem de azinho. Quando muito, e a custo, apenas servem para acompanhar o coro a meia voz ainda assim não estrague a harmonia dos que têm jeito. Foi a cruz que me calhou carregar para toda a vida, a de ter uma goela que desafina da condição de alentejano. Resta-me o consolo de escutar o prazer do cante. O que já não é pouco, digo eu em abono da verdade.
Vem este desabafo a talhe de uma enorme satisfação. Um contentamento que deveria ficar apenas no armário das coisas íntimas. Aprazimento que, na manêra de ser transtagana, um homem apenas deve conversar com os seus botões. Quando muito, coisas que apenas se desembucham das portas para dentro, na roda de amigos.
Mas então esta transbordante vontade de que não se perca a gesta e o gesto. Esta imensa vontade de contribuir para perdurar viva a identidade da planície e dos homens diferentes que nela habitam. Daí este grande querer dar vaia do contentamento que sinto. Aí vai: o meu filho, que não desafina da condição de alentejano, vestiu o traje do cante e debutou no Grupo de Cantadores do Redondo.
Quando partir somo na coluna do haver terreno mais este contentamento!

Eu sofro do mesmo mal... não tenho (boa) voz.
Um abraço solidário,
Francisco Nunes
Afixado por: Planície Heróica em abril 24, 2004 01:08 AMPois é amigo Isidoro, também me junto ao grupo... e olhe que às vezes tenho mesmo "alguma" mágoa nesta dureza "gargantil". No entanto, um dia poderá acontecer... a profecia do Manuel Alegre:
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa
CANTAR
Há muito tempo perdi nas cantigas
Toda a vontade de me descrever!
Agora lêem palavras antigas
Dizem ser elas... lindas de morrer
Foram mais falsas do que as raparigas
De dois amores e sempre a sofrer
Searas verdes... de frescas espigas
Um trigo roxo que me fez morrer
Sobrevivi a tantas sementeiras
Tantos pousios tive de enfrentar...
Mas ainda hei-de de cantar janeiras
E se esta voz que tenho de soltar
Souber parir palavras verdadeiras
Medo de quê se gosto de cantar
João Moutinho
99/12/08
Um abraço.
Como dizia o poeta:
...Se trouxeres mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saibas cantar!
Continuando, direi mais: Como diz o Salomé...
POIS CANTE!
Um abração para o compadre, do
Zecatelhado
Afixado por: Zecatelhado em abril 24, 2004 04:54 PMNa minha terra já não se ouvem
As gentes a cantar,
Pra espantar a rudeza dos campos
Agora o cante está colorido
De memórias e resignação