abril 20, 2004

Pisar a terra nua e crua

Taipa.jpg
Photo de Mariano Piçarra

Há mestres construtores que levantam casas em terra crua. Isto desde o tempo em que Cristo andava pelo mundo. Deitam a terra entre dois taipais de madeira, fecham os topos com comportas, apertam tudo com agulhas de ferro, costeiros e cordas e pisando-a com maços, levantam paredes. Esses especialistas eram – porque hoje já quase não existem – os construtores da taipa, pedreiros que, além desta, dominavam outras técnicas de construção.
A maior parte do Alentejo abrigou as suas gentes em casas de taipa. Casas senhoriais de impressionante traçado foram assim construídas, sirva como exemplo o Paço Ducal de Vila Viçosa. Outras vezes eram construções de somente quatro paredes, quase sem compartimentos, como as pobres casas do Castelo, em Serpa.
Construir em taipa é uma forma de utilizar o mais singelo e comum dos materiais: a terra. A pedra há que procurá-la aqui e ali, ajeitá-la, parti-la. O tijolo há que moldá-lo do barro, secá-lo, cozê-lo, dispô-lo um sobre o outro. A terra, de onde vimos e aonde retornamos, é outra coisa. Está à mão. Existe em toda a parte. Há só que compactá-la para que ganhe resistência. Prensá-la de forma adequada, para que se transforme em barreira contra a intempérie. É uma invenção quase óbvia do homem.
(...)

(do livro Margem Esquerda do Guadiana de João Mário Caldeira)

O João Mário é um alentejano meão na altura, mas de grande inquietação. Nasceu na aldeia de Santo Aleixo da Restauração já lá vai um porradão de anos, tantos, que já tem netos. Da academia da cidade grande trouxe um canudo de historiador. A sério, a sério, a história aprendeu-a na sua terra com a sua gente. O João Mário é a modos que um homem observador. Levou a vida professorando a mocidade da margem esquerda do Guadiana. E escreve, escreve magnificamente das coisas da nossa terra. Tem a veia dos dezedores antigos desta transtagânea de poetas. E na esteira destes, gosta igualmente da pinga, do petisco e de afeiçoar a goela ao cante na companhia dos amigos.

Publicado por machede em abril 20, 2004 12:31 AM
Comentários

A construção em taipa, disse-mo um amigo arquitecto, está a ser recuperada no litoral alentejano...
E ainda bem! Estou farto de ver casas em tijolo com traça de casa de taipa.

Pretendi contruir em alvenaria de pedra parte da minha casa... Um pesadelo com os ditadores dos PDM's. Às tantas, já bruto, disse ao arquitecto que me garantia que no Alentejo não se construia em pedra:
-A casa do seu tio é de alvenaria, e já não faço casa nenhuma...
Pronto! venci a parada.
A minha casa acabou com uns muros em pedra e cimento armado. Caiei-a e tudo. Mas isso é outra história...
Um dia destes havemos de beber um copo por aqui e conto o resto...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em abril 20, 2004 12:48 AM

Para além das paredes de taipa, sempre suportadas pelos contrafortes, a fim de aguentarem o peso do telhado, o que mais me impressiona são as abobadas em tijolo.
Feitas "a olho" por verdadeiros pedreiros livres, daqueles que não precisam de aventalinho, pois o seu saber é intuitivo.

nota: não fazem trafego de produtos proibidos.

Afixado por: António Carrilho em abril 20, 2004 09:55 AM

Amigo Isidoro, o Alves Caeiro é o nome do Albardeiro, isto também para dizer que ainda me lembro, na minha infância, de ver construir uma parede de taipa. A outra coisa, era para aproveitar a deixa do Francisco e dar azo ao BOM Gosto de querer beber um copo; olhe que é uma ideia de BOM Senso, "coisa" que o comentário assinado por um tal "sagher" num post sobre o Zapatero não pareceu ter.
Um abraço.

Afixado por: Alves Caeiro em abril 20, 2004 04:53 PM

"Foram cravos, foram Rosas" - Manuela Moura Guedes;
"Só não mudam os Burros" - Mário Soares;
"Nas caldas" - Zé Povinho

Afixado por: António Carrilho em abril 20, 2004 06:55 PM

parece que o exercicio da livre tribuna é, para alguns, um caso de incómodo, diria até que começam recordar nostalgicamente o tempo em que, alinhados como carneiros, todos revelavam ter " BOM SENSO " coisa aliás indispensável para uma vida regrada e armoniosa, pois daqui vos digo com muito orgulho um poema de um POETA EBORENSE que durante anos se dividiu entre o alentejo real e os alentejos construidos em redor de Lsboa:
de ANTÓNIO MONJINHO

OS RAPAZES DO MEU TEMPO

Osrapazes do meu tempo morreram
todos. Só que alguns ainda não
sabem...
quando eram novos tinham como
eu o vezo de arrazar o Mundo
Mas
tinham tanta pressa de crescer
que ultrapassaram tudo
adiaram
tudo|
principalmente o gosto de mudar
a vida....
e agora andam por ai à espera da
caridade de um coveiro que lhes
acomode os ossos
os rapazes do meu tempo
os rapazes de
todos os tempo
morreram cedo. Puzeram tanta força
em ser adultos que não aguentaram
o peso da idade
por tudo isto é que eu sempre me
recusei a crescer


escrito a 5-2-1982
por ANTÓNIO MONGINHO

Afixado por: sagher em abril 20, 2004 10:44 PM

O blog do Isidoro não tem este propósito, mas o "sagher" até teve uma certa piada. Existem duas maneiras principais de tornar possível o impossível. A primeira é ter bom senso. A segunda, acredite, é não utilizá-lo. A pessoa de bom senso pode, por sua conveniência, não utilizá-lo às vezes (algo que a pessoa de bom senso tem plena consciência, pois ela sabe respeitar e entender as diferenças individuais).E com isto dou por encerrada a questão com o "sagher".
Isidoro temos que beber esse copo proposto pelo Francisco - podia ser na Adega em Mourão.
Um abraço.

Afixado por: Alves Caeiro em abril 20, 2004 11:56 PM

Óh SAGHER, mói-te, mói-te que bates na porta errada. Atão ainda não percebeste que nem sequer funcionário público sou? Além de que nem sequer ao meu filho mudei os cueiros.

Afixado por: Isidoro de Machede em abril 21, 2004 12:49 AM

Olá a todos, serve este comentário para alimentar a curiosidade dos participantes nesta 'conversa' para uma página da internet www.centrodaterra.org, de uma associação cujo objecto é, nem mais, as construções em terra.
Por curiosidade também, este fim-de-semana em Évora irá ser inaugurada uma exposição sobre o tema. Ficam então convidados.
Até outra oportunidade.

Afixado por: Eduardo Carvalho em maio 4, 2004 02:23 PM

Viva. O meu nome é Ricardo e sou estudante de arquitectura. Gostaria se fosse possível, que alguém me pudesse indicar alguns sites, livros ou pessoas que soubessem sobre construção em terra, uma vez que é um assunto que me interessa bastante. Obrigado.

O site está porreiro!
Um abraço

Afixado por: Ricardo Pires em maio 21, 2004 01:22 AM

sou filho desta terra, e de ela nunca me eide esquecer, a ti santo aleixo da restauracao irei recordar-te ate morrer. terra mais linda ainda nao vi, historia como a tua tb nao, assim falarei de ti para os meus filhos ate mais nao.

Afixado por: manuel gaoncalves machado em agosto 13, 2004 09:26 AM

Ricardo se apos visita ao site do Centro da Terra necessitares de mais informação sobre Arquitecturas de Terra contacta-nos a solicitar o que pretendes.

Afixado por: Catarina Pereira em setembro 2, 2004 06:19 PM

Ricardo se apos visita ao site do Centro da Terra necessitares de mais informação sobre Arquitecturas de Terra contacta-nos a solicitar o que pretendes.

Afixado por: Catarina Pereira em setembro 2, 2004 06:21 PM

Olá a todos. Queria ser Alentejano puro, mas nao o sou, é-o, a minha querida mãe, que nasceu numa aldeia perto de Mértola, a Vila Museu que desde pequenino me deu a conhecer. Neste momento restauramos a casa dos meus avós, mas que infelizmente as paredes da fachada tiveram que ser em tijolo... uma aberração e ofensa a esses livres "arquitectos" alentejanos.
Sou Designer à dois anos, e gostaria que se conservasse estas construções...porque não criarmos uma associação que desse mais acesso aos mestres da taipa, que sei que existem...
Aqui deixo um fósforo, que espero que seja aceso...
Se houver alguém com vontade de fazermos algo, por favor contactem-me João Costa 966031369

Afixado por: Joao Costa em novembro 11, 2004 11:33 PM