abril 15, 2004

Regar-de-pé

Dos Árabes, coube-nos a herança da sua sapiência no cultivo de hortas e pomares. Esta sabedoria estava em perfeita sintonia com os seus avançados conhecimentos de hidráulica. Elevar e conduzir águas, era uma necessidade ditada pela intensificação de culturas e aumento das áreas de regadio. Assim o exigia o seu apetite pelo consumo de frutas e legumes. As frutas que hoje fazem parte da nossa dieta alimentar, uma grande maioria passou igualmente pela mesa dos Árabes. Consta inclusive que foram percursores da engenharia vegetal, ao inventarem os damascos. Cardos, labaças e espargos eram matéria-prima culinária de apanho ao deus dará que, tal como nós, de maneira alguma enjeitavam. Favas, ervilhas, grão-de-bico, berinjelas, espinafres, cenouras, nabos, rabanetes e pepinos, eram o brio dos seus hortejos e prática quotidiana da sua mesa. Não desprezavam igualmente o alfobre dos alhos, dos coentros e da hortelã. Sem esta última, o que seria da famosa infusão, verdadeira lenda bebível dos povos do Magreb.
Dos tempos do mítico Al-Andaluz até quase ao finar do XX, conservaram-se estes saberes e fazeres. Basta-nos observar os hortejos que pululam por esse sul a fora, nas bordas das cidades e vilas, pequenos quinchosos onde o operário mantém o seu imaginário camponês.
O acto de regar sempre envolveu o prazer de saciar, do dar de beber ao que tem sede. É um acto fraterno muito ao jeito do camponês. Regar-de-pé, é uma expressão comum no vocabulário do hortelão cujo significado se prende com o conduzir da água através de regos, pela força da gravidade, de forma a que a terra húmida e saciada se torne produtiva. É precisamente nesses regos condutores da água, permanentemente húmidos, que cresce uma planta espontânea, em regra prostrada, carnosa e muito suculenta, da família das portuláceas. É essa planta que, no léxico comum, se denomina de beldroega.
Sem saber ao certo das razões do acto, pela necessidade ou apenas a paixão da novidade, o certo é que imagino o hortelão puxando o chapéu desabado para o cocuruto, enquanto coçava a cabeça e remexia com o olho da enxada na carnuda planta, ao mesmo tempo que remoía com os seus botões que a dita tinha pés para andar a caminho da panela. Assim o pensou melhor o fez, possivelmente com a ajuda da mão cozinheira da sua Maria. O alho, mas a cabeça inteira. O queijo, à falta de outro vai o de cabra que também é queijo. E o pão? Claro, atão p’raquê o caldo sem a sopa de pão. E não é que a coisa tinha mesmo pés para andar! Tanto que tinha que, de ideia em ideia, de panela em panela, de sabor em sabor, angariaram as beldroegas companhia de peso e extravagância capazes de se cobrirem de glória.
Quem conta um conto acrescenta um ponto. Calhando, estou a meter a foice em seara alheia... No entanto, atrevo-me a imaginar assim o nascimento da fabulosa sopa de beldroegas.
beldroegas.jpg
Sopa de beldroegas com queijo
2 molhos de beldroegas
1 Kg de batatas
4 cabeças de alho inteiras
2 queijos de cabra
4 ovos
1,5 dl de azeite
sal
pão duro fatiado

Partem-se as beldroegas aproveitando as folhas e os caules tenros. Tiram-se apenas as cascas exteriores das cabeças de alho, mantendo as cabeças inteiras. Aquece-se o azeite e refogam-se as cabeças de alho, juntando de seguida as beldroegas que também se refogam ligeiramente. Acrescenta-se a água (1.5 l ) ao refogado e deixa-se levantar fervura. Deitam-se os queijos cortados aos quartos mais as batatas às rodelas. Quando estas estiverem cozidas, rectifica-se o sal, escalfam-se os ovos e verte-se o caldo numa terrina sobre o pão fatiado. As beldroegas, o queijo, os ovos escalfados, as batatas e as cabeças de alho são servidos como acompanhamento em travessa à parte.
sopa_beldroegas.jpg
Para maior regalo da comedia, acompanhe com um branco maduro alentejano.
Como aconchego para dar azo à trabalheira da digestão, console-se com uns figos de S. João devidamente descascados e bem frescos.
E agora, à sesta malta, que se faz tarde.

Publicado por machede em abril 15, 2004 01:10 AM
Comentários

A esta hora uma sopinha dessas vinha mesmo a calhar. Ai meu deus até fiquei com água na boca...até parece que consigo sentir o gosto...hummm. A cozinha alentejana é sem dúvida de uma enorme riqueza, devida em boa parte às dificuldades sentidas pelo povo que aqui vivia, e que o levaram a aguçar o engenho e a arte. Para quando a açorda de poejos?

Afixado por: Xanu em abril 17, 2004 03:30 AM

Posso aconselhar um branco?
Pode o sacristão dar uma dica ao vigário?
Posso?
Então lá vai:
...branco de Pias!

Concordas?

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em abril 18, 2004 07:25 PM

estou nessa, comprei uma beldroegas e o cheiro ja se esta metendo pelos sentidos. é uma sopa de se lhe tirar o palato

Afixado por: ze da joana em agosto 7, 2004 08:25 AM