A quietude mansa das águas espelha a paz da natureza. Nem a comadre rã se atreve a serrar o silêncio. Nas margens, de vez em vez, apenas se sente o restolhar fugidio do anafado coelho que com o anunciar da aurora põe termo à labuta pela sobrevivência. Está prestes a fechar-se a gaveta do sossego da noite. Está prestes a abrir-se a gaveta do desassossego do dia. É neste ápice que medeia entre o fechar e o abrir, entre o sai a noite e entra o dia, entre o morrer e o nascer, que a vida parece suspender-se como que a reflectir a sua harmonia. É da contemplação desta magia da harmonia que também se alimenta o vício do pescador. É como que um regressar às origens do homem caçador, em que o acto tinha a solenidade da inteira comunhão com a mãe natureza.
Depois, com levantar do sol, com o levantar da impar luz da planície, que se definem os contornos do homem que pesca. Calmo, expectante, atento ao menor indício, pronto a saborear a vertigem do pique e da argúcia e sabedoria na recolha da presa. É este o momento alto do vício, o climax do homem que pesca.
Apetrechado com a singela cana comum, o anzol, a bóia de cortiça e o fio atado na ponta, ou com um estendal de estilizadas canas e demais artefactos e assessórios que mais parecem tecnologia provinda da NASA, o pescador mata o vício hipnotizando a água na iminência de pescar. Se não pesca, é o desalento manifesto na condição de apanhar o chibato. Resta-lhe o consolo de na próxima a sorte não ser avessa, que a parte da comunhão é sempre lucro.
Eu pescador me confesso. A minha paciência piscatória não tem limites, basta-me estar lá a pensar no nada ou em quase tudo, apenas com o enorme prazer de ter pontapeado à saída da cidade os tudo que me preocupam e enchem a vida de nada. É decididamente o meu yoga.
O local onde se pratica o acto, o sítio denominado por pesqueiro, é sem dúvida um pormenor de primordial importância. Sem menosprezar os gostos e as tendências dos meus parceiros de yoga, sou doentiamente criterioso na sua escolha. Selecção que fundamento em dois itens: o palpite na abastança piscícola do sítio e o aprazível e beleza da margem que me dá assento. Os olhos e o conforto também pescam.
Há ainda um aliciante que torna as pescarias em fabulosas folgas. É o inevitável companheirismo que carregam, solidificando tertúlias saboreadas ao longo de vidas. Jornadas quase exclusivamente masculinas, em que a ironia, a critica, a anedota e a mímica redundam em comédias representadas num palco do tamanho da margem inteira. A acrescentar a estes improvisos teatrais de fim de semana, há o copo e o petisco, sustento imprescindível para o estômago e espírito dos bravos do anzol.
Há ainda as subtilezas inerentes ao valor das espécies. Para uns, tudo o que vem à rede é peixe, para outros, apenas conta a pesca dos pontos necessários aos troféus. Eu subtraio da água apenas o que me dá prazer gustativo e me alimenta. Muitos outros haverão para quem a pesca, apenas tem sentido pelo somatório dos prazeres da arte e do palato.
Vem esta lenga-lenga a propósito da minha última jornada piscatória que teve por palco a albufeira do Monte do Vale de Lameira, ali nos termos de Alcáçovas com o Torrão. Pescando furiosamente ao achigã com isco a condizer, embarbelou-se uma admirável carpa que retirei após uma batalha tremenda. A adjectivização excessiva tem a ver com a famosa oralidade dos pescadores, da qual também não estou arredado.

(photo Inês Gonçalves)
Carpa no poial da cozinha perante o espanto da famelga, enquanto eu dava voltas à imaginação para dar um arranjo comestível ao ciprinídeo. Devo informar os leigos que a dita, não é bicho de estimação na óptica da culinária regional. Bom, mas nada melhor do que pedir socorro há cátedra sapiente do Manuel Fialho e do Alfredo Saramago. E pronto, Cozinha Alentejana, página 118, ei-la, a plebeia Carpa no forno.
Mas, como gosto de reflectir as questões e fazendo juz ao meu esforçado amadorismo culinário, dei-lhe o meu toque pessoal que, após experiência feita, aconselho vivamente.
Carpa no forno
1 carpa grande (2 kg)
0,5 l de sumo de limão (do meu acrescento ao original)
5 cebolas
6 tomates
1 pimento
6 dentes de alho
1 folha de louro
2 dl de azeite
2 colheres de banha (do meu acrescento ao original)
1 colher de massa de pimentão (do meu acrescento ao original)
sal e pimenta
batatas para acompanhar
Arranje e limpe a carpa. Com uma faca bem afiada, golpeie a carpa em continuo e de enviesado com a proximidade possível e até à espinha dorsal sem a cortar. Repita a operação do outro lado com o enviesado ao contrário. Deixe a carpa de um dia para o outro a marinar no sumo de limão apenas temperada com sal, voltando-a por quatro vezes.
Retire a carpa da marinada e escorra-a. Num tabuleiro de ir ao forno faça uma cama com rodelas de cebola, rodelas de tomate, rodelas de pimento e alho picado. Deite a carpa em cima desta cama, esmague o louro e junte com a banha, com a massa de pimentão e a pimenta e barre a carpa por cima. Regue com o azeite. Ponha no forno em lume brando. Durante a assadura regue a carpa amiúde com o molho e corrija o sal. A meio da assadura junte em redor da carpa as batatas partidas aos quartos.
No meu painel de provadores tenho por figura incontornável a minha mãe, emérita cozinheira com saber feito de uma vida. Expectativa enorme, prognósticos vários e avulsos. Cheiro e aspecto a criar uma opinião favorável.
Assunto pronto na mesa, e sem favor algum a fazer figura de raridade gastronómica. Um branco da Vidigueira a acompanhar a movimentação. A meio da jornada, o consenso estava obtido. A Carpa no forno é sem dúvida uma iguaria que se recomenda.
A bem do Alentejo, pela valorização dos nossos recursos endógenos.
Excelente evocação das jornadas de pesca! Também aqui há uns tempos pesquei duas carpas e as comi no forno - que pena não ter à mão esta receita... Mas, meu caro, desculpar-me-á: nada chega a uma jornada de pesca às trutas, num rio de montanha, se possível sem ninguém à volta, fora do mundo...
Afixado por: josé carlos em abril 7, 2004 01:35 PMCaro Senhor,
Como proprietário da Herdade Vale Lameira, fico muito satisfeito por ter lido uma crónica tão interessante. Agradeço desde já a receita da carpa.
Foi uma exelente entrada, mas meu amigo se com uma de 2 Kg fez-se festa, imagine com uma de 7.400kg como a que eu apanhei na barragem de Stª. Agueda em Castelo Branco.
E de barbos ninguem fala? é a minha especialidade, em espanha costumo fazer grandes pescarias com barbos entre os 2kg e 5kg