A corrida do tempo contínua inexorável, o galope da Primavera reveza o passo do Inverno. A vida renasce impetuosa, e, tal como dizia o meu avô Isidoro, até se ouve a erva crescer. Sem desdenho pelas outras estações, considero que o real passe de mágica do mago da vida é a Primavera. Mais a mais, aqui, na terra transtagana ela representa o suave trampolim que balança o salto sobre a rudeza do estio. É como que ouvir o doce Vivaldi preparando o ouvido para o tempestuoso Wagner.
Quando ainda de calções ou mesmo já no empertigar da calça comprida, saboreava com especial deferência o interlúdio das férias da Páscoa. Era o sempre desejado intervalo no pesado fardo da penitência escolar. A regalada aberta na chatice da padeira de Aljubarrota que desancou os maricas dos espanhóis à pazada, do glorioso Mouzinho que ajoelhou o colonizado Gungunhana, da geografia do arquipélago dos Bijagós que, no desvario da imaginação do estou aqui mas não estou, comparava às Berlengas a abarrotar de uns gajos mais tisnados do que eu. A Páscoa, era o tempo da escola alternativa que, no meu entender, era substancialmente mais sumarenta dado o manancial de matérias finalmente interessantes; Zootecnia da caça aos grilos e da descoberta dos ninhos da passarada; Ecologia na inspecção do habitat do rio Xarrama; Sociologia Rural in loco na Aldeia de N. Sª. de Machede; Psicologia com o Estronca, maltês nómada de circuito curto que cirandava em volta da terra, (maltês, que hoje seria mais um excluído na nomenclatura do rendimento mínimo); Física aplicada nas fisgadas aos peixes-sapos na lagoa por trás do cemitério; Geometria Descritiva dos jogos do berlinde e do pião; Medicinas Alternativas na observação dos curativos ao cobro, com o óleo de trigo tremês aquecido na forja do mestre Medinas; e ainda havia as aulas de Filosofia que, a pretexto dos cromos da bola, frequentava à socapa na taberna do Armando.
Uns anos, bastantes anos mais tarde, o Mestre Agostinho da Silva deu-me inteirinha razão quanto à maçada da escola. 1+1=2, 1+2=3, 1+3=4, 1+4=5, 1+5=6. Ainda se fosse na ribeira a contar rãs, a coisa compunha-se, agora assim a fazer coro com mais trinta condenados transidos de cagaço e com a alma mais negra que o quadro de ardósia, só apetecia mesmo deitar-me ao relaxo.
Mas adiante que tristezas não pagam dívidas. Mau grado o soturno roxo da sexta-feira Santa e os crisântemos da mesma altura, na Praça do Giraldo,- jamais gostei do roxo e de crisântemos, possivelmente porque sempre esconjurei o masoquismo e, angústias, na velhice teria tempo para as ter -, mas não perdendo o fio à meada, a um passo da sexta-feira santa vinha o sábado de aleluia que ficava na esquina da segunda-feira do borrego, segunda-feira esta que desvairadamente alargava os horizontes da minha academia alternativa, introduzindo-lhe a saborosa matéria gastronómica e as rosadas moças com os peitinhos a desabrocharem.
Mandava a tradição que a seguir à paixão se seguisse a degustação do borrego e dos bolos fintos da Páscoa num almoço campestre. Era o dia do retorno das gentes às origens. Despovoava-se a urbe em carreiros de gentio, com cestos, buscando as melhores sombras do seu imaginário camponês. Fatiotas já leves e garridas, mais atrevidas nas moças que já tremelicavam da líbido nos namoricos da primavera. Corte feminina a que os moços não eram avessos corricando rubores de azinheira para azinheira, quais sentinelas vigiando as suas mouras encantadas. Os adultos, mais comedidos nos devaneios não fosse a comadre estar d’olho nos atrevimentos, entre um tinto e a fatia de borrego davam largas aos seus conhecimentos do meio físico. Elas, as mães e funcionárias do doce lar, sonhavam com a multiplicação deste doce remanso pelos restantes trezentos e sessenta e quatro dias do ano.
Perna de borrego assada em forno de lenha
2 pernas de borrego pequenas
200 gr de banha
2 folhas de louro
½ dúzia de grãos de pimenta branca
2 cravos de cabecinha
1 ramo de salsa
6 dentes de alho
2 cebolas grandes
2,5 dl de vinho branco
sal q.b.
1,5 kg de batatas pequenas
É na Páscoa que a carne do borrego de erva se encontra na sua plenitude de textura e sabor. O recipiente, para a confecção deste prato, deve ser uma assadeira de barro e a assadura deve ser feita em forno de lenha.
Arranjam-se as pernas de borrego, golpeando-as dos dois lados. Deixam-se na assadeira a marinar, de um dia para o outro, com todos os condimentos incluindo o vinho branco. Deposita-se a banha, acrescenta-se um pouco de água e leva-se a assar em forno brando com toda a marinada. Durante a assadura deve-se ir voltando a carne de forma a que esta seja uniforme. Na ponta final da assadura, deitam-se as batatas na assadeira em volta do borrego, salpicadas de sal.
Serve-se neste recipiente. Há quem acompanhe com uma salada de alface temperada com hortelã e coentros.

A logística da tralha, dos comestíveis e dos bebíveis, para uma jornada merendeira com todos os requisitos de malvadez requer conhecimentos de planificação.
Deve ter em atenção as várias necessidades em artefactos, acessórios e algum mobiliário (no meu caso não dispenso a mesa, aliás, não sou capaz de quantificar o ódio que nutro pelas comezainas em pé, e sentado no chão também não dá muito jeito). A manta, a toalha de mesa e os guardanapos, as alfaias, copos e prataria, o balde do frapé, o frasco térmico para o café, a tesoura dos puros, as cadeiras e a mesa de campanha, bem como a tradicional cadeira de repouso com assento em lona (esta deve sofrer uma revisão das costuras porque, se bem me lembro, foi numa cadeira destas que o Salazar se lixou). Deve igualmente pugnar por sacos para o retorno do lixo para não ser exactamente porco como a generalidade dos outros nove milhões que, conspurcam tudo o que é palmo de campo e de praia.
Relativamente aos comestíveis, à parte os já citados borrego assado e bolos de massa finta, deve constituir um lauto e diverso aprovisionamento que contemple: paio, queijo Serpa, pastéis de bacalhau, azeitonas, ovos verdes, cabeça de xara, costeletas de borrego panadas, coelho frito, salada de batata, tarte de espinafres e pão de ló de Alfeizerão. Deve ter em atenção o hermetismo dos recipientes para os molhos, caso contrário, corre o risco de ficar com a traquitana a cheirar eternamente a segunda-feira de Páscoa.
No que concerne aos bebíveis, a coisa necessita de grande apuro técnico, a saber - branco Lagido dos Açores para aperitivo, brancos maduros de Portalegre e da Bairrada, tintos maduros de Évora e de Palmela sendo que os intrépidos digestivos ficam ao vosso critério. Para que a felicidade seja plena não esqueçam o cafézinho do comendador.
De forma a não contribuírem com um extra para o orçamento geral do estado, à cautela, contratem um motorista.
A bem da protecção da natureza humana.
O amigo alentejano tem um delicioso verbo escrito e umas não menos deliciosas sugestões alimentares. Não nega a naturalidade, antes pelo contrário.
Afixado por: Mel em março 30, 2004 01:14 PMCada vez gosto mais de ler as suas receitas culinárias tão genialmente ilustradas pela palavra! Parabéns!
Afixado por: André em abril 7, 2004 12:13 AM