Há uns anos que o mestre Choca abalou deste mundo. O sapateiro prodigioso que, durante uma vida, teceu da pele à forma o calçado de meia aldeia de Nossa Senhora de Machede. Do calçado fino das bodas ao calçado rude do trabalho. Feito à medida com o desenho do pé gordo modelado pelo lápis na folha de papel pardo. Ao lado do traçado pedonal, rabiscava as medições do peito do pé ao calcanhar e à sola. Caso o calçado fosse caneleiro, lá apontava igualmente o preciosismo da medida da barriga da perna. No canto superior da folha, apontava ainda: fulano de tal, encomenda em tantos do tal para estar a obra pronta em tantos do tal. Rigoroso o mestre Choca.
Até desamparar as ferramentas quase à beirinha do passamento, foi o meu artesão das botas caneleiras. Por mou disso, batemos bastas tardadas de lérias. Era um homem que, tal como amiúde me confidenciava, gostava de dar uso ao cerol que tinha na cabeça. Gostava de pensar este mundo de tristezas e de alegrias. Mais tristezas que alegrias no seu entendimento.
Mesmo no tempo da mordaça, nunca me fez segredo da sua posição oposicionista. Por via de carregar essa atitude, desde novo, se tinha metido a aprender o ofício de sapateiro. Se assalariado rural tivesse sido, tinha a convicção que o chilindró lhe teria carcomido a vida, dizia-me. Antes ganhar mal para a sopa trabalhando por conta própria.
O 25 de Abril era a sua beatitude. Foi ele que anunciou à aldeia a queda do regime do bolor, tal como o apelidava. Contou-me vezes sem conta a sua noite de redenção.
- Fiquei aqui na oficina a fazer serão na companhia da telefonia. Aí pela meia-noite, quando estava quase a deixar a sola em paz, toca aquela coisa do Paulo de Carvalho. Não sei porquê tive um pressentimento. E fiquei por aqui de orelha à coca. Quando tocaram o Zeca Afonso, dei um salto e gritei, é desta! Borrifei-me na arte e fui por aí acordar os camaradas firmes. Olha, pela primeira vez tirei um descanso avultado. Não pus aqui os pés durante uns dias, andei por aí de taberna em taberna a comemorar.

bela imagem romantica que nos dá no seu blog. uma imagem de passado no entanto viva, poruqe é da vida e da morte que fala. em relação a essa data, tão querida de alguns, resta-me dizer:
que pena que é, mas tal como no filme de bertolluci, 1900, também aqui eles ganharam e o que se revelou mais maquiavélico é que atrairam gente que veio da mis´ria e da luta, para o seu lado, com o sonho de, um dia serem como o patrão.
Não há nada pior que trair-mos o que acreditamos, quando isso acontece é a nossa vida, os nossos amigos que são traídos.
fiquei espantado ao ver esta página a retratar este grande HOMEM que foi o meu avô.
mas gostava de saber quem foi a pessoa que teve esta grande ideia de elaborar esta pagina
gostava de ter uma resposta
obrigado
gostaria de ter uma resposta e saber quem escreveu esta página . já que se trata de uma página sobre o meu avô. fico á espera de uma resposta .
se não for pedir muito
joaquim galvoeira