março 18, 2004

Da terra e do mar...

Começa a clarear o espírito. As conversas destes dois dias retornaram-me a lembrança do tio Francisco, pastor de quem me abeirei há uns anos nos campos vizinhos de Porto Covo. Após uns dias a alcançar confiança, inquiri-o da sua teimosa atitude de costas viradas ao mar. Respondeu-me forçado e de repelão: desse cão, estou farto! Recordo-me de, na altura, ter matutado durante uns dias nos porquês dessa má convivência. Hoje, o João, de famoso o Sacas, com casa de pasto ali no Porto das Barcas, disse contundente: por duas melancias e uma ceira de batatas trazia, ali debaixo, o peixe que eu entendia, marisco não, que esse não alegrava a tripa.
Ainda hoje não tenho uma fiável explicação. Agravou-se no entanto a ideia que, por um lado, o medo da liquida planície era imenso, por outro, da pouca estima dedicada aos comes que daí advinham, ou, poderiam advir. Como pôde esta gente embarcar em periclitantes embarcações e lançar-se no oceano do desconhecimento. Que paradoxo imensurável. Quão violento deve ter sido o embarque!!??
Voltando à crónica da paparoca, afinal, motivo nada violento desta andança. Ontem, pelo toque das trindades, perdi-me por Monchique. Amesendámos no simpático José Pedro, moço da minha mocidade timoneiro da Charrette. De entranças: lombo de porco na banha de cor, morcelas de farinha de milho e arroz, assaduras e um respeitável presunto. De prato de substancia: feijão com couve e batata doce com carne de porco. De por cima: queijo de figo, bolo do tacho e pudim de mel. De bebível: Tapada da Torre (Portimão), Lagoa reserva 2000, o inevitável medronho e mais uns licores avulsos. E muita conversa sobre os fazeres e haveres alimentares destas serranias.
Hoje, com o sol a pique, rumámos para as odemiráveis terras de Odemira. No Sacas, enfrentámos de rompante: navalheiras e bruxas (para mim o top da bichesa com casca). De substancia: filetes de peixe aranha, polvo frito e raia de fricassé. De bebível: Planalto. E novamente muita conversa sobre os usos e costumes alimentares destas planícies de terra e água.


Publicado por machede em março 18, 2004 06:26 PM
Comentários

À anos, que o tempo tomou,
na Herdade da Torre Bela
olhei um sonho, já passou,
e da amizade? qué feito dela?

Hoje, já somos memória
nestes tempos de impotencia
quisemos mudar, fazer história
dar ao sonho consciência

Afixado por: sagher em março 18, 2004 10:20 PM