
Em 75, 76 e 77 morei em Campolide, mais precisamente na Arco do Carvalhão lá mais para os lados do arco, quase, quase na fronteira com o Casal Ventoso. Quando o PIB do Ventoso ainda brotava de outros proventos que não do pó, mas igualmente subjectivos é certo. Vivia nessa altura em comunhão de adquiridos com a Nena, professora e empenhada militante do movimento da escola moderna.
Foi igualmente na situação de amancebados que decidimos comprar um transporte. Negócio que fechámos com o Zé Det. Quinze notas de mil em troca de um tarimbeiro e cinzentão 2 CV, de idade indefinida e com uma ronha adquirida no porradão de léguas já consumidas a velocidades estonteantes, 60,70.
Foi fiel companheiro de mais uma barbaridade de léguas, grande parte delas com a lotação esgotada, frete desmesurado que o deixava na estrema com o ataque de nervos. Mas lá resistia, ronronando válvulas e pistons naquela bonomia freak e baloiçante de capota arrepanhada.
O mê calça arregaçada – nome de baptizo – não era manhoso por aí além, a não ser no ódio de estimação que nutria pela ladeira da António Augusto de Aguiar. Pelo cabeço acima se, porventura, pressentia nos calcanhares um verde de dois pisos da Carris, era certo e sabido que o bicho se jogava ao chão. Ali ficava prostrado sem tugir nem mugir com o pulso fraquinho, quase sem vestígios de vida. Só rebocado pelo bigodes da Auto-reparadora de Campolide arredava pneu. Após uns dias de enfermaria e, por troca com umas verdosas de vinte passadas para as mãos do bigodes, lá retornava às lides todo pimpão.
Mesmo descontando estas amenas ingratidões, foi um afeiçoado colega de um
ror de gloriosas andanças. Até que um belo dia pôs-me os palitos. Ficou de volante nos braços da Nena quando a comunhão de adquiridos se esvaiu em aparelhagem a ti, LPs a mim, sofá a ti, artesanato a mim.
Já morreu há um porradão de quilómetros este valentão das dúzias. Certamente terá ido descansar o chassie ali para os lados de Sacavém. Só espero que a Nena, de vez em quando, lhe leve um raminho de flores!
É engraçado como personificamos os objectos de que gostamos...
um abraço,
Francisco Nunes
Pois, quando avancei de vez para Moçambique ofereci o meu carocha a um amigo (já tinha ele outros dois), por o não considerarmos vendável.
partiu-se-me o coração...
Excelente estória. Abraço.
Afixado por: João em março 11, 2004 05:46 PMque diria o karpa desta merda?
lamechiches do caralho. a posse, o carro a gaja tudo afinal meus é poribido proibir ou não.
fds mais estes anarquistas da treta
Este blog continua animadíssimo e dá sempre um gozo do caraças lê-lo.
Com que então Campolide? Companheiro, fomos vizinhos, pôrra!
Um abração do
Zecatelhado