Está agora na moda, vai não vai, a conversa rodar à volta das auto-estradas da comunicação. Assunto deveras candente e actual, cuja modernidade está bem patente nas figuradas autovias da noticiação. Concordo pois que o poderoso esmeril da comunicação se faça acompanhar de um rótulo significativamente condigno.
Quero, no entanto, prestar a minha sentida homenagem às velhinhas redes informais da informação local e regional, redes, que num passado não muito longínquo, supriam localmente a falta de jornais, rádio e televisão, funcionando com base numa vertiginosa tecnologia oral de um exército de zelosos operadores, 24 sobre 24 horas. Sublinho ainda o importante pormenor de este eficaz serviço público funcionar com base no voluntariado, Pormenor maior que, certamente, deixará transidos de inveja o Murteira Nabo e o Belmiro de Azevedo. Sem cair no despudor do excesso, atrevo-me a alcunhar esta sofisticada rede de vaivém da informação.
Velocidade e um eficiente toma lá dá cá noticioso, oficioso ou não, era e é também apanágio do serviço público informativo da minha aldeia e arredores. Aliás, basta recordar a emblemática e usual referência à eficácia do serviço - basta dar um traque na praça que no minuto seguinte já toda a aldeia sabe. Uma verdadeira pérola da sábia criatividade e ironia popular.

(reunião do Conselho de Redacção)
Havia e há os com uma intervenção restritamente local, assumem a incumbência em full time, mas cujo profissionalismo e dedicação os consagrava e titula de: o Século, o Diário de Noticias, a ANOP... Havia e há ainda aqueles que desempenham ofícios (hoje denominados de serviços de proximidade), que estão para a arte de comunicar -como a corda está para o caldeirão – o barbeiro, a cabeleireira, o carteiro, a menina da junta... Depois existiam e existem ainda os de âmbito regional, função que exige uma certa mobilidade e é geralmente exercida em part time porque complementar a uma outra fonte de receita - almocreves, amola-tesouras, motorista da carreira, vendedores ambulantes... E, tal como nas outras profissões, a questão da ética também está presente - o fulano de tal sabe do que fala, ou, não liguem que ela é linguareira e isso são invencíonisses. A notícia investigada, a de fonte fidedigna, a de fonte próxima e a posta a circular por encomenda, constituem instrumentos para um bom ou mau desempenho destes liberais da língua.
No que toca ao lado feminino da função, ela tem geralmente a ver com a dona de casa - passa a vida no laréu a dar à língua de vizinha em vizinha. O perfil masculino era mais abrangente e sofisticado... Na barbearia a coisa atinge contornos de espionagem e contra-espionagem à boa maneira de fita de cinema - o dito sopra a informação com subtileza enquanto acerta a patilha do cliente. Na sacristia, bom ai a coisa assume contornos de serviço especial e só se produz informação classificada e etérea.
Este serviço público voluntário faz igualmente parte da nomenclatura do quinto poder e, como tal, é mais temido e respeitado do que a prometida justiça do Criador no além. Coitado de quem merece tratamento informativo e cai nas bocas do mundo.
Durante as estadias na minha aldeia, basta-me o obrigatório périplo matinal – café e barbeiro -, para me considerar ao corrente dos títulos gordos. Depois, enquanto ganho fome para o almoço e aqueço o esqueleto no borralho da chaminé, a tia Balbina ciranda pela casa nos afazeres domésticos ao mesmo tempo que desenvolve o restante boletim informativo. Só que esta revista de imprensa leva o seu tempo: ai filho que me esquecia do teu almocinho. Olha, vou fazer uma açorda de espinafres que é coisa rápida. Houve uma altura em que não achava muita graça às açordas. Hoje, tal como as noticias gosto delas quentinhas, com muito caldo e um odor intenso a coentro e a alho.
Açorda de espinafres com ameijoas
1 molho de espinafres
1 kg de ameijoas
1 molhinho de coentros
1 cebola pequena
4 dentes de alho
1 folha de louro
1 dl de azeite
4 ovos
sal
¼ de pão duro q.b.
Após lavar as ameijoas, cozem-se com sal em água suficiente para a açorda. Quando abrirem, arrendam-se e retiram-se da água. Numa panela à parte, refogam-se no azeite muito ligeiramente, os alhos às lascas, a cebola picadinha e o louro quase triturado. A seguir refogam-se levemente os espinafres arranjados às folhas. Deita-se neste preparado a água suficiente para o caldo, e deixam-se cozer os espinafres. Quando cozidos, rectifica-se o sal, escalfam-se os ovos e arreda-se do lume. Juntam-se as ameijoas. Verte-se a sopa sobre o pão previamente fatiado.
Com um branco e os amigos por companhia, esta açorda é infalível para abordar a questão do vaivém da comunicação. Aquando dos digestivos já certamente a conversa esbarrondou para as crónicas de costumes. Certo e sabido, compadre Manel!
Que o Criador nos livre de uma paralisia na língua.
Uma pérola da informação...
Que saudades do tempo em que em cada aldeia havia um barbeiro.
Se se pudesse escolher o sitio onde se nasce, eu gostaria de ter sido alentejano!
Em criança passei muitas férias na aldeia das amoreiras, perto de odemira, com o "pai" Ganhão e "mãe" Emilia. A vida tem coisas bonitas e uma delas é que a minha cunhada, ou em inglês "sister in law", já era minha irmã desde pequena, pois era filha de uma casal tão amigo dos meus pais, a quem eu chamava pais e que me levavam ao alentejo.
Eram horas e horas no Volkswagen carocha azul bébé em estradas rectilineas, interrompidas aqui e ali por uma lomba... até chegar á aldeia. Tempos felizes, dos quais tenho pouca memória, mas que fica sempre um cheiro. O cheiro da esteva que ainda hoje adoro.Pronto... depois de começar a escrever aqui, vou acabar no www.azelhasdomar.blogs.pt...Não resisto.