março 06, 2004

Óleos & margarinas

De vez em vez frequento e dou fé do Glória Fácil. É inteligente!
Tenho seguido a sua recente costela gastrónoma. Costela estimada por pensar que a comer é que a gente se entende. Costumo, inclusivamente, charlar sobre aquela sumidade americana - certamente paga a peso de ouro e se bem me lembro no tempo do cavaco - que passarou por aí a descortinar o potencial nacional e descuidou a nossa rica e latente gastronomia. Leia-se rica e latente também como factor económico, e, daí, ser um dever do sábio investigador elevá-la ao altar do cluster. Possivelmente, para um papa-hambúrguer, isso não é recurso económico é luxúria.
Transcreveu há umas línguas atrás, o Glória, uma trempe de receitas gentilmente enviadas pelo cidadão Pereira. Caldeirada de mexilhões, sopa de cação e ensopado de borrego. Respeitáveis pitéus que, com excepção da dita caldeirada, são paradigmas da arte alentejana de bem cozinhar em toda a sertã. Venerável a achega petisqueira, mesmo com a inclusão de algumas variantes técnicas menos rigorosas e mais inventivas. Nada a dizer da criatividade. É uma verdade sustentada pela história da alimentação que a arte da cozinha não deve estar esparramada no meio dos velhos do Restelo. Agora daí até o dito Pereira ter prantado na receita do ensopado uma colher bem cheia de margarina e mais não sei quanto de óleo? Já lá vai! A não ser que tenhamos novamente regressado aos famigerados tempos da sanha inquisitória contra o fiel azeite. Em que as multinacionais dos óleos e margarinas empurraram o líquido doirado das prateleiras das mercearias e das mesas pela força de uma modernice colonizadora do palato e da saúde. Margarina é gordura gordurosa que não tem declaradamente lugar no tacho de qualquer comedor que se preze. Muito menos no tacho do meu santo e alentejano ensopado de borrego.

Publicado por machede em março 6, 2004 01:00 AM
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