março 01, 2004

Al Berto

al-berto.jpg
De seu nome Alberto Pidwell Tavares. Nascido em Coimbra, teve em Sines a terra da infância e da adolescência. Andou depois por fora uma rima de anos, principalmente por Bruxelas. Tinha boas mãos para a pintura, arte que estudou um pouco e pincelou mais. Quem lhe conheceu a obra diz que prometia. Dela, fez questão o poeta que nada subsistisse. Depois descobriu-se poeta e prosador. Mas, essencialmente, um poeta que tinha um grande prazer em prosar a poesia.
Após Abril, voltou a Portugal. Entre Sines e Lisboa, andou um pé cá um pé lá. Foi artífice da cultura na Câmara e no Centro Emmérico Nunes em Sines. Em Lisboa escreveu e publicou muito e festejou imenso a sua amiga noite. Ao contrário de muitos outros, reconheceram-lhe a obra ainda em vida. Vá lá! O Al Berto era merecedor. A sua obra testemunha-o.

não cantes

olha em redor dos bosques as veredas destruídas
pela explosão devastadora das minas e ouve
as vozes límpidas morrerem no poema

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico

grava na parede esboroada do ar
o sulco ténue da infância – e fala-me dela
aproxima-te
para veres o horror tranquilo das imagens
no fundo dos meus olhos

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico

debruça-te naquele terraço virado ao inimigo
onde um rosto de estuque arde e
um ferro reduziu a memória a nada

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico

em volta das casas demolidas o anoitecer
o lume incontrolável – e alguém
atravessa o deserto
com uma criança de jade nos braços

antes e depois da alegria
antes e depois do pânico
mas
sempre durante o sofrimento

não cantes

(do livro “Horto do Incêndio”)

Conheci o poeta por intermédio do seu irmão, António Pidwell, meu colega de trabalho no projecto de Messejana e meu amigo. Chegámos à fala na quinta de Santa Catarina. Belo espaço alcandorado no cimo da falésia, outrora existente, há esquerda da praia da vila. No centro do horto, uma magnifica casa de traça colonial. Telhado de quatro águas que cobria igualmente um varandim envolvente virado ao oceano. A voragem do progresso engoliu a quinta e a casa, e não contente, cortou a falésia a meio para deixar passar mais um tapete negro de alcatrão.
Portugal_Sines_beach.jpg

Publicado por machede em março 1, 2004 01:05 AM
Comentários

Antes de mais, obrigada pela sobremesa! Depois, obrigada por recordar Al Berto...ultimamente, recordo-o através do trabalho Wordsong: fantástico!

Afixado por: ao_sul em março 1, 2004 01:50 PM

claro que, e como não o tinha feito ainda, teria que agradecer o manjar que sorrateiramente foi deixado no local escolhido para a almoçarada antes da cavaqueira à volta do blog! Contudo fica já esta questão resolvida: Muito obrigado.

Afixado por: Zé Chaparro em março 1, 2004 09:49 PM