fevereiro 29, 2004

O Luís e a Caravela das Índias

Figueira de Cavaleiros, sede da Freguesia com o mesmo nome e fica a meio do caminho entre Stª Margarida do Sado e Ferreira do Alentejo. Terra de regadios, de arroz, tomate e melão, ilha de pequenos agricultores no meio dum oceano de grandes herdades. Vivi lá uns anos, por mor dos encantos da Zeza que a terra tem como sua. Já lá vão tantos invernos como os que o meu filho Frederico tem de vida, vinte e quatro e mais umas luas.
Naquela altura acreditava na reforma agrária como reabilitadora de injustiças e alavanca que possibilitasse ao Alentejo sair da pobreza e do marasmo. Tal como no presente continuo a ser um crédulo. Contudo, se o desenho da dita for novo e à semelhança do sentir e do pensar dos alentejanos.
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E assim aconteceu que por um par de anos, no Monte Branco da Loira, ali, como quem vem de Grândola, fui trabalhador rural e cooperativista. Lavrei, semeei e colhi, tratei do montado e do gado, passei noites de guarda ao monte com o Zé, o Chico Gaio, o tio Zé Ângelo e muitos outros companheiros de lida. Com eles aprendi outros segredos, até aí desconhecidos, da vida da terra e dos homens. Com eles fui aos pássaros ao candeio e aos cogumelos. Na sua companhia aqueci a tripa com cálices nocturnos de aguardente, no Pau de Lenha, em Stª Margarida. A recruta destes andares, tinha-la feito na famosa Torrebela, cooperativa amaldiçoada pelos senhores do poder da altura. Hoje, na lonjura do dobro de vida abençoo estas academias que tais ensinamentos me proporcionaram.
Tinha vinte e cinco anos e uma sede imensa de tudo perceber. Não resisti, assim, ao cumprimento dos desígnios da minha ascendência camponesa e, talvez, ao honrar da memória do lavrador Isidoro Calado, meu avô e homem republicano de uma vida inteira.
Mas voltando à minha vivência na Aldeia da Figueira... Depois da labuta quotidiana, era costume beber um copo, de vinho ou cerveja, no Zé Luís ou no Luís da Loja. No Zé Luís bebia-se um trago e cortava-se o cabelo, ou serviço completo, barba e cabelo, que tanto pai como filho eram mestres do ofício. No Luís da Loja o copo era à socapa, porque o estabelecimento tinha estatuto de mercearia, ainda que com uma panóplia de produtos capaz de pedir meças, em diversidade, ao mais abastado hipermercado citadino. Ele era mercearias e sementes, roupas, fazendas e calçado, carnes frescas e de conserva, pregos, parafusos e tintas, loiças de barro, plástico ou esmalte, agulhas, linhas e botões, enfim, um mundo de conveniências e serviços que deixariam zonzo qualquer jovenzito formado em gestão comercial. E o Luís, com a bonomia dos profissionais do balcão, lá levava a bom porto o que mais parecia uma caravela das Índias atafulhada de necessidades para a terra. À laia de graçola, ainda hoje desconfio que ele sempre vendeu noventa centímetros de elástico por um metro - aquando da medição, esticava-o, no metro de madeira. Perdoas-me certamente a inconfidência, porque sabes o quanto sempre fui danado para a brincadeira.
E era ali, no canto de cimeiro da loja, como quem sobe para a estrada nova, junto ao balcão de madeira e tomando por assento o que desse mais jeito entre a quinquilharia reinante, que a maltezaria despachava umas minis ou médias, conforme a sede e o prazer da laracha. O Balé Gordo, o Tónho da Lança, o meu cunhado Zé e o Tónho Zé da Água eram os companheiros destas tardadas clandestinas de copos. Para tapar a bebida, sempre havia uns torresmos, uma rodelas de linguiça ou paio, umas lascas de bacalhau salgado ou toucinho da salgadeira, umas fatias de queijo de ovelha que condutávamos com o sagrado casqueiro alentejano enquanto batíamos umas lérias para animar a malta. Depois, ala que se faz tarde, cada um desandava para a janta. Nada melhor que uma reconfortante e quentinha sopa da panela para rememorar estas lembranças quando o tempo vai de rijezas e de invernia.

Sopa da Panela
½ kg de carne de vaca
½ kg de carne de borrego
½ galinha ou ½ kg de peru
120 gr de toucinho de porco preto
1 linguiça pequena
2 dentes de alho
1 cebola
1 colher de chá de massa de pimentão
1 folha de louro
1 raminho de salsa
1 ramo de hortelã
sal
pão duro cortado aos cubos

Numa panela introduza as carnes frescas e a linguiça, a cebola e a salsa, o alho, a massa de pimentão e o louro. Acrescente água bastante para o caldo e salgue levemente. Ponha a cozer em lume médio. Quando as carnes estiverem mais para o cozido, corrija novamente o sal. Deixe cozer completamente e retire a cebola, o alho e a salsa do cozinhado.
Numa terrina, deponha a hortelã no fundo e por cima o pão cortado aos cubos. Deite o caldo onde cozeram as carnes por cima das sopas. Corte as carnes e sirva em travessa à parte.

A sopa da panela tem um odor e um sabor capaz de erguer um moribundo. E se por ventura se acolita do vinho certo que, ao meu ver, deve ser um tinto jovem e leve, então meus amigos a coisa roça o deslumbramento.
O Alentejo e as sopas são uma fraternidade.

Publicado por machede em fevereiro 29, 2004 03:47 PM
Comentários

desta feita gravei, ó pá!
é já prámanhã.

Afixado por: joão em fevereiro 29, 2004 04:53 PM

...mesmo em momento de desfome apreciei a sopa e a prosa que a antecede...abençoadas gentes da planície ( ..eu que estou no Norte..)

morfeu

Afixado por: morfeu em fevereiro 29, 2004 06:51 PM

O Isidoro de Machede
esta missa não frequentou.
Laranjas, canela, mel e azeite.
Boa herança nos deixou.

in: posta de '28 de Fevereiro'


Um abraço,
francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em março 1, 2004 12:06 AM

Grande surpresa! As laranjas em azeite e mel com canela em pau!

Muito obrigado.

carlos a.a.

Afixado por: carlos a.a. em março 1, 2004 02:44 PM