fevereiro 19, 2004

Arqueologia

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Não me recordo quanto era, todavia não seriam mais de duas dezenas de tostões. Évora a Nossa Senhora de Machede. Depois, da estação até à aldeia, não mais que três quilómetros, embalávamos no trote largo da charrette do tio José. No regresso ao burgo eborense, nova viagem na tracção animal e na tracção a vapor. Eram um delírio estas jornadas familiares à aldeia. O senão, morava nas esfregas beijoqueiras das velhotas – ai mê rico menino. O contrapeso dos lambuzados beijos, esmiuçava-o nas tardadas de fisga no bolso a zunir pelo o campo. A penantes ou numa pedaleira alugada ao Fitas a dez tostões à hora. Pelo fim da tarde, antes do regresso ao Monte do Monviso, ainda havia uma nesga de tempo para despachar umas gasosas na Sociedade da Música. Ala que se faz tarde, corria desalmadamente para a vacaria a tempo de, desajeitadamente, tentar aprender a ordenhar sob os ralhos do avô Isidoro. Puxava igualmente a mim, a tarefa de despejar nos caqueiros a comida que haveria de saciar os rafeiros do Monte. Muito vagamente, ainda mantenho uma lembrança fugidia dos malteses a pedirem ao avô para dormirem no casão da palha. Depois eram as noites diferentes das da cidade, alumiadas pelo petróleo, e dormidas com o olho na telha de vidro do telhado de telha vã.
Como gostava de fazer a viagem, de cabeça de fora, a saborear o cheiro do carvão ardido na fornalha da locomotiva e a ver desfilar as azinheiras numa correria louca às arrecuas. Como gostava de ir sentado no banco forrado com pele de borrego, ao lado do tio José, a observar o movimento vigoroso do trote largo da égua sob o silêncio da charneca que só as ferraduras e o deslizar das rodas, nas estrada de terra, se atreviam a cortar. Como eram saborosas as açordas, com bacalhau e figos de S. João, no Monte do avô Isidoro. Como gostava de ter agora uma máquina de viajar no tempo!

Publicado por machede em fevereiro 19, 2004 01:45 AM
Comentários

O compadre está nostálgico...

Um abraço,
Francisco Nunes

Bebemos um copo no dia 28?

Afixado por: Planície Heróica em fevereiro 20, 2004 12:31 AM


Boa tarde!

Não sei se o conheço pessoalmente mas permita-me o atrevimento de me dirigir a si desta forma um tanto ou quanto impessoal.Sou frequentador assíduo do seu espaço porque também eu sinto esta terra da forma como você maravilhosamente a sente. Transmitir esses sentimentos da forma extraordinária como o faz é remeter-nos para um passado tão próximo e tão longínquo que só nós sabemos...Aqui vai pois o nosso reconhecimento...
Não resisti hoje a manifestar-me porque a alusão que faz ao trajecto Évora- Na.Sra de Machede, a vapor, também me é comum...Seja no apanhar da automotora das dez entre Évora e o Paço de Saraiva ou no alegre despertar desde o alto do meu quarto no dito monte do Paço de Saraiva, com o apito da dita ou do combóio o que me remetia imediatamente através da janela, com vista para a bem cuidada horta da qual hoje apenas resta ...o local.Outros tempos nos quais experimentava a tracção animal ou para ir buscar com o Ti Zé Santa, o "surrasca", a água férrea à fonte da "Banhita" da qual bebi até aos meus onze anos, ou para com o mesmo ir "à folha" levar o jantar à malta, cuidadosamente cozido ao lume nas panelas de barro, repasto do meio-dia para mais uma tarde de sementeira superiormente orientada pelo Tio Jacinto Lamúrias, o maioral das parelhas...Ao fim da tarde era esperar que o Lérias, o vaqueiro, chamasse uma a uma e pelo nome todas as componentes da vacada, que num ritual só visto entravam ordenadamente na cabana para depois serem por nós servidas com a ajuda do carro da moínha do tão importante suplemento...Caía a noite...uma corrida até ao monte para rapidamente devorar "um ovo enrolado com linguiça" que a Tia Anica preparava e...serão na cabana das mulas a escutar histórias e a tomar contacto com o calão dos Brasileiros que não poucas vezes me custou algumas bofetadas da minha mãe que quase "corava" com a eloquência do discurso...!
Prendem-me efectivamente laços culturais e sentimentais a essa zona de Machede que ainda hoje visito com alguma nostalgia para reviver com alguns, esses momentos...
Ver essa cultura divulgada da forma como você o faz, obriga-me a reagir e a humildemente...agradecer!
Um abraço

Ricardo Freixial

Afixado por: Ricardo Freixial em fevereiro 22, 2004 04:38 PM