Verdadeira bíblia para os estudiosos ou simples curiosos do tema. Obra da autoria do saudoso Mestre Eugénio de Castro Caldas. Professor que contribuiu dedicadamente para a formação de inúmeros agrónomos. Mestre que, durante uma vida cheia, reflectiu e cultivou um desenvolvimento sustentado para este país.
À laia de notificação sobre o conhecimento, e direi mesmo o respeito, que nos merecem os nossos melhores pensadores, rabisco dois eloquentes exemplos de percepção oposta: dos vários professores das academias portuguesas a quem da obra falei, poucos a conheciam ou dela tinham alvíssaras; de uma académica catalã que por aqui andou colhendo um doutoramento sobre o uso agrário alentejano ao longo dos tempos, trazia a sua referência na bibliografia a consultar. Sinais de uma herança salazarenta que escondia no vão da escada – não poucas vezes em sítios mais esconsos e gradeados -, os que não reverenciavam ou até cometiam o supremo sacrilégio de se atrever a discordar publicamente.

Da introdução deste faraónico trabalho, retiro um excerto que, penso, aquilata do rigor do Mestre.
(...) Quando a Vida Rural solicitou ao signatário que elaborasse uma série de Artigos de Informação Cientifica de Base ligados ao seu Ensino não lhe pareceu possível tentar a História da Agricultura, embora tivesse regido Disciplina subordinada a este título, sem que se considerasse historiador. Verificou que recorrera à história como instrumento científico que provinha de raiz Pré-histórica na Arqueologia, Antropologia, bem como na Geografia Física e Humana, Etnografia, admitidas, quanto muito, como História Natural, onde vem inserir-se a História de Portugal. Todavia, quando, no decurso da elaboração dos referidos artigos, foi resolvido publicar um trabalho, não pareceu ao signatário que a referência à História fosse adequada, dando preferência à designação de “Agricultura portuguesa através dos tempos”, visto que a Agricultura precede a “História de Portugal”. Não deixávamos de admitir a inexistência da coordenada “tempo” na realidade da dimensão do Universo cientificamente compreensível, presumindo-se apenas a evolução da “vida”, feita a partir da base da Energia que se encontra na origem e na adaptação às transformações naturais do Planeta Terra. Nos “Reinos” mineral, vegetal e animal existiria longo “período” Pré-histórico, na Natureza ainda não humanizada, sendo encontrados na evolução das “Espécies” os vestígios da presença Humana de que trata a Antropologia em função das condições Geográficas e Comportamentais dos Primatas. Pelo motivo de se pretender a descrição da Agricultura no espaço Geográfico onde Portugal acabou por ser implantado como orgânica política, recebendo naturalmente influências do exterior, volta a preferir-se a designação de “História de Portugal” embora se não recorra à metodologia desta Ciência no que se refere à documentação dos factos que registam os acontecimentos. O que se pretende, partindo das circunstâncias Pré-Históricas explicativas da evolução futura da Agricultura, é encontrar o momento em que o “mistério” do longo e insondável processo de Humanização do Universo, o Trabalho se implanta como nítido alicerce da Vida Sociológica. Regressamos, por isso, sem qualquer sombra de dúvida à reedição do que possa ser considerado interpretação de conteúdo Agronómico de “Agricultura na História de Portugal”, visto que nunca poderíamos apresentar aos nossos Leitores a “História da Agricultura Portuguesa” dotada de metodologia apropriada no que respeita à fundamentação científica dos factos comprovados adequadamente. Foi possível basearmo-nos em Historiadores que promoveram o aprofundamento e a análise de documentos referentes a diferentes Idades e Épocas, sendo as lacunas preenchidas por especialistas de outros ramos das Ciências Sociológicas, completando-se tal conjunto com deduções de Agrónomo que, por vezes, representam interpretações científicas de factos Humanos e de acontecimentos nebulosos, induzidos por circunstâncias Ambientais inesperadas. O texto representará Antologia, Memória e Lenda, ficando longe da forma de Romance que se pretendia elaborar, de acordo com o Processo Agrário tanto quanto possível investigado.
Casa da Andorinha, 1998
Fiquei curioso,
um abraço,
Francisco Nunes