Já por vezes tenho dito que a gastronomia é uma arte esteticamente tão sublime que, mestres como Domingos Rodrigues ou João Ribeiro têm tanto direito às mordomias da história como a pintora Vieira da Silva, a fadista Amália Rodrigues ou o matador Manuel dos Santos. Tanto uns como outros, criadores de genialidades, quiçá mais perenes ou mais efémeras, mas todas com o condão da sedução e deslumbramento dos que a elas se rendem. Uma tela, um fado, um passe de peito, podem, se executados com mestria, produzir agradáveis sensações tal como uma iguaria as pode despertar. Todos estes actos têm, como fim último, o objectivo de proporcionar o maior prazer aos que com sentimento os vivem.

Não cometo um grande sacrilégio se disser que a cozinha é uma arte que mexe com a totalidade dos sentidos. Ao cozinhar, se o artífice praticar o acto em plenitude, usará certamente os cinco sentidos com que foi contemplado ao nascer. O cheiro e o gosto são importantes, mas não o são menos o tacto, o ouvido e o olhar. Qual o cozinheiro que não sorri de satisfação, ao quebrar um legume, perante sons que indiciam frescura? Não é por acaso que a sabedoria popular evoca com pertinência que – os olhos também comem!
Nunca é demais afirmar a riqueza da comida alentejana, resultante de uma imaginação sem peias e que, ao longo dos tempos, as gentes foram esculpindo como uma arte de primores e fascínios. Eu, na medida da minha modesta contribuição, vou continuando a esculpir, vou continuando a sonhar a permanente descoberta de outras novas e perfeitas gloriosas comezainas.
Há não muito tempo e à volta de uma mesa, dado o tema, em conversa com o Correia, comandante da restauração do mesmo nome, templo ancorado em Vila do Bispo, concluímos que: o acto de criar uma nova comezaina passa por produzir mentalmente um guião como se da realização de um filme se tratasse. Ao filme que vais construir, correspondem imagens, sons, cheiros e sabores que tens no armazém da memória. São essas imagens, sons, cheiros e sabores que vais misturar, ajustar, apurar, até concluíres mentalmente a invenção do projecto. Depois, na frente do fogão, tiras a prova dos nove.
A comedia que se segue é fruto de uma sessão de cinema semelhante.
Amêijoas à Isidoro de Machede
1 kg de amêijoas
2 cebolas
6 dentes de alho
2 dl de azeite
1 folha de louro
200 gr de toucinho
1 linguiça pequena
½ kg de tomate
250 gr de tortulhos (cogumelos)
1 courgette
3 dl de vinho branco
sal
Num tacho, refogo no azeite a cebola às rodelas, o alho picado e o louro. Com refogado a meio termo junta-se o vinho e deixa-se apurar. De seguida junta-se o tomate devidamente pelado e cortado aos quartos. Quando o tomate estiver cozido, com a varinha mágica, transforma-se o preparado em puré. Caso fique muito grosso junta-se um pouco de água.
Junta-se então ao puré o toucinho fatiado e a linguiça às rodelas. Deixa-se cozer um pouco, para de seguida juntar os tortulhos aos bocados e a courgette às rodelas. Por fim deitam-se as amêijoas, envolvendo-as no molhos afim de abrirem. Corrige-se o sal. Pessoalmente gosto deste cozinhado com um pouco de picante. Vícios africanos!

A acompanhar, vá embebendo criteriosamente dos dois lados nacos de panito no molho. Como guarda de honra, um branquinho seco.
Esta comedia deve ser olhada na nomenclatura protocolar como uma digníssima entrada. Mas se a entrada em cena for por outra ordem não será o caso de atrapalhar o papel.
Que o engenho continue a ser irmão do atrevimento.
Já copiei a receita. Obrigado compadre Machede.
Um abração do
Zecatelhado
HEY MAN,
Quasi perfeito, mas provocacoes gastronómico_virtuais fica um pouco custoso!!!
O sabe(o)r está no fazer...
Restaurante,...nós esperamos!!!
AGARFO
luis
Afixado por: luis em fevereiro 15, 2004 04:19 AM
Quem sabe, sabe...
Só de ler a receita fiquei com fome...
Um abraço,
Francisco Nunes
homem, às ameijoas ainda não me cheguei. Mas nem você imagina as saudades que me fez, cá de tão longe, ao invocar esse Correia - quantas vezes por aqui distribuo alento na memória das melhores lulas recheadas que há memória.
Crueldade sua...