fevereiro 12, 2004

Direito de pernada

Recordo-me de no recato familiar se ciciarem histórias, sempre a meia voz. Sei de outras afirmadas nas tertúlias dos homens. Nas minhas andanças por lugares alentejanos, conheci alguns casos. Uns mais tortuosos e dramáticos, outros de assumidos amores sombrios, outros ainda vividos à luz do dia e permissivamente aceites. Coisas perfeitamente “normais” num mundo de escassos senhores e imensos criados. Coisas de um mundo em que a impunidade de um mando desmedido, coberto pela indulgência da lei, gerava inevitavelmente bastas licenciosidades. Basta consultar os arquivos paroquiais e, mais tarde, dos registos civis, para destaparmos um exército de filhos “ilegítimos”.
Da má fila do direito de pernada, o que sei, ouvi da boca dos antigos. Histórias mais ou menos enfeitadas de tempos há muito idos. Da minha juventude, guardo uma boca corriqueira dita em ambientes a puxar para o marialva: criada em que o patrão não se monte, não toma amor à casa. Não há fumo sem fogo!
Vem isto a propósito do «Senhores e Servas – Um estudo de Antropologia Social no Alentejo da primeira metade do século XX». Livro de David de Morais, dado ao prelo pelas Edições Afrontamento.
Senhores e Servas.jpg

O direito do «senhor» usufruir da primeira noite de núpcias das virgens e donzelas dos seus domínios remonta a tempos muito antigos, e parece ter tido origem na prostituição religiosa praticada na Antiguidade: inicialmente seriam os sacerdotes a desfrutar de tal privilégio, mas depois seguiram-se-lhes os reis-sacerdotes, os reis, os nobres e, por fim, os burgueses. Este direito consuetudinário dos nobres teria mesmo levado à sublevação de algumas comunidades ou povos, como terá acontecido na Judeia, no Piemonte, em Montferrat, etc. (...)

Do prólogo do «Senhores e Servas»

Publicado por machede em fevereiro 12, 2004 02:11 AM
Comentários

Incrível, no século XX??

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em fevereiro 12, 2004 10:31 PM

Pois é sim senhor, em pleno século XX ainda tínhamos este lindo "serviço"...
Nasci em 1973 e cada vez que, na minha infância, visitava o que restou da herdade da família perto de Beja, achava muito estranho que os filhos das criadas que se parecessem valentemente com os meus primos...O meu tio patriarca faleceu aos 103 anos, há cerca de 15 anos atrás. Ainda hoje não sabemos quantos filhos teve, até porque ele também não o sabia...
A única coisa que tem piada nesta história, era ver o meu tio a garantir sob palavra de honra que desde os seus 95 anos não "fazia asneiras".

Afixado por: Cristina em fevereiro 18, 2004 10:23 AM

A propósito dos comportamentos abusivos dos "senhores", convirá lembrar que a legislação régia portuguesa do início da nacionalidade era bastante severa: em "Portugaliae Monumenta Historica. Leges et Consuetudines", relativamente aos "Costumes e Foros de Alfaiates" (1188-1230), pode ler-se: "(...) Qui muliere uelada forçare enforquen lo (...)"

Afixado por: J. David de Morais em julho 9, 2004 04:37 PM