O amigo António Cunha (o fotógrafo) ofereceu-me esta verdadeira pérola publicada há nada menos que meio século.

Na condição de alfabetizado, a par da guarda republicana e da polícia, era a menos drástica escapatória para fugir à precária situação da jorna rural, a troco de sabe-se lá quantas horas de trabalho e de submissão. Nos primórdios do século passado, de ar a ar, depois, até às famosas greves do final da década de 50, de sol a sol.
Com jeito o trabalho era num raio próximo da terra. Um cantão (x quilómetros de estrada) por conta a manter em bom estado. Um capataz que vinha de quando em quando medir a manutenção, mas quase sempre estava longe da vista. Uma pedaleira ao serviço como transporte. O único senão, era a mangação generalizada, dos do campo, sobre o célebre suor de cantoneiro. Mangação que incluía uma ponta de inveja por se não alcandorarem a serem do estado, com trabalhinho quer chovesse quer fizesse sol. Uma coisa era certa, passavam ao lado dos rancores reservados aos que se passavam para as fileiras da autoridade. E que rancores!
Voltando ao manual. É justo frisar da sua utilidade como instrumento de formação profissional. Apetrechos que, suicidariamente, os pensantes dos tempos “modernos”, jogaram no baú da história tal como as úteis escolas industriais.
Objecto pedagogicamente bem estruturado, acessível e com as instruções técnicas necessárias à arte. Contém ainda um interessante anexo sobre unidades de medida do sistema métrico e outras medidas diversas, medições de áreas e volumes e as necessárias tabelas de pesos dos diferentes tipos de solos e outros materiais.

Como não poderia deixar de ser, contém, igualmente, a cartilha salazarenta das boas normas de conduta do pessoal cantoneiro.
a)– Apresentação
O pessoal cantoneiro deve apresentar-se na estrada convenientemente uniformizado, de harmonia com o que está estabelecido, barbeado e de cabelo cortado, não esquecendo nunca que deve impor-se pela sua apresentação. Deve prestar a sua colaboração a outras autoridades: polícia de viação, guarda republicana e guarda fiscal.
Em presença de um superior, o pessoal cantoneiro deve estar em atitude correcta e de respeito (posição de sentido).
Os cantoneiros poderão trazer, por debaixo da camisa regulamentar, os agasalhos que lhes forem necessários, não lhes sendo, porém, permitido envergar sobre a farda qualquer outra peça de vestuário, além do casaco e calça impermeável, fato de couro ou fato de macaco, quando estiverem trabalhando com betume. Durante o verão usarão a camisa com a gola aberta nos dois primeiros botões e as mangas arregaçadas, se o calor a isso obrigar. Os chapéus regulamentares serão usados sem a copa e a aba de apresentarem deformadas.