Sou assumidamente um homem do sul. Concebido, nascido e criado aqui, na terra do ocre e da cal, nunca o norte magnetizou a minha bússola. E quando a vida me deu para andar, procurei os caminhos do destino nas rotas mágicas das Áfricas, onde o bambolear musicado dos corpos acrescentou liberdade e fantasia ao temperamento austero do meu sul. Mesmo agora que, novamente sedentário no meu sul sou, quando a vontade ou a necessidade ao norte me levam, estou e gosto, mas o que mais gosto mesmo é regressar e achar que já estou em casa, quando do alto da Serra dos Candeeiros avisto a planície que nem no infinito se perde. É aí que começa o sul da minha geografia sentimental.
Lisboa é a cidade do sul mais ao norte. Na altura, talvez não só por isso, mas o certo é que aí vivi nos loucos anos de brasa, nos meados da década de 70. Para os andarilhos da altura, cirandar a juventude pela boémia da capital era como que partilhar o Olimpo com os deuses.
E foram na realidade anos temerários, numa Lisboa ainda sem correrias e sem os bares do come-em-pé, em que os verdes de dois pisos e os amarelos da carris, rodavam sem desesperos num ronceiro vai-e-vem de citadino prazer. Numa Lisboa pacífica, em que a rotineira desinquietação boémia dos duros jantava na Trave ou no Fidalgo, despachava umas imperiais entre ruidosas tertúlias político-filosóficas na Trindade ou no Convívio, rumava e tentava arrumar umas namoradas no Bolero ou no Bonaparte e ... se sim, sim, se não restavam os copos da sossega no Cacau da Ribeira ou no Mercado do Rego. Nestas coisas da amesendação, dos copos, da animação e da cultura, (exacto, disse cultura, que é palavra bem dita para oficiar tais santos lugares), havia ainda um mar da palha, raso de alternativas populares ou eruditas, às quais, por gratidão profunda, rabisco a minha homenagem.

Atulhei ainda a mente de imensos conhecimentos e sabedorias, no trato com mestres daqui e acolá, de vidas cheias de vida que, das artes à política, me ajudaram imenso a moldar a existência. Foi na companhia dessas gentes que bebi a cidade até ao último trago. Na sua companhia costumava deambular, farejando iguarias que me trouxessem memórias antigas ou novidades saborosas. Dessas andanças gastronómicas guardo na lembrança uma taberna, ali para os lados de Moscavide, em que o chamariz era nem menos nem mais que túbaros de borrego com ovos mexidos. Tratava-se no caso de um aconchego para a memória, já que o petisco em causa era useiro e vezeiro nas casas de pasto alentejanas.
Túbaros de Borrego com ovos
1 kg de testículos de borrego
4 ovos
2 limões
6 dentes de alho
1 cebola
banha
vinho branco
louro
colorau
sal
Arranje e lave muito bem os testículos de borrego. Seguidamente, corte-os às rodelas da largura de um dedo. Tempere-os com o sumo de 1 limão, 2 dentes de alho e o sal. Numa frigideira refogue na banha os restantes alhos e a cebola, os primeiros picados e a segunda às rodelas finas. Junte o louro e uma pitada de colorau. Depois do refogado estar loirinho junte os testículos e deixe-os refogar mexendo de vez em quando. Borrife com vinho branco, deixe apurar e corrija o sal. Bata os ovos. Quando a carne estiver no ponto, junte os ovos batidos ao molho e envolva bem o preparado. Ao arredar regue com o sumo de limão a gosto.
É natural que já não exista a dita taberna. Foi coisa de há vinte e tal anos atrás. Aliás, é melhor nem a procurar, para não ter o desgosto de encarar com uma baiuca a puxar ao pingarelho, abarrotada de um exército de tias frustradas que de beiços estendidos sorvem galões e dão dentadinhas em queques requentados enquanto cospem miolos e asneiras sobre os asnos do big brother. Imaginem ainda que a mágoa me ensandece, entro e peço, com voz de Manuel Alegre, à menina do shoping: - um jarro de tinto e uma dose de túbaros com ovos.
Possivelmente terminaria esta saga entre gritos histéricos e desmaios, numa camisa-de-forças a caminho do Miguel Bombarda, isto, caso não fosse parar às mão de um fanático da protectora dos animais que, de imediato, me despacharia para o Oceanário da Expo como comida para peixes.
O meu coração, é decididamente avesso a tanto progresso!
Esse prato também o faziam com jeito numa daquelas casas de comes-e-bebes próxima da Praça das Cebolas, numa ruela a caminho da baixa, paralela ao Tejo...
Estive na Lisbya há pouco tempo.
Os alfarrabistas ainda se mantêm na Trindade (fiz p'ra aí uma posta em que falei de um deles) mas os sítios de comezainas estão muito modificados.
Inspirado pela Conferência Episcopal Espanhola, parece-me que assisti à 'amaricanicezação' (não existe esta palavra mas gostei das conotações que lhe li depois da escrever...) da cidade de Lisboa.
Estive lá de 1981 a 1986, apareceu em força um bar/esplanada na Avenida. No primeiro ano os 'rotos' tomaram conta da última fila de mesas, as mais afastadas do quiosque. No ano seguinte já tinham 3 filas (9 mesas). Dois anos depois havia 'rotos' na metade 'de cima da esplanada' e desprevenidos na outra. Passado uns tempos aquilo estava cheio de 'rotos e abichanados' (Ah grande Pipi)...
O serviço também se abichanou...
Bebiam-se umas imperiais sem problemas, a principio... depois ficou na moda a tosta mista.
Foi um termómetro dos tempos que aí vinham...
Tempos!
Como dizia o outro: O tempora! O mores!
Um abraço,
Francisco Nunes
P.S. Compadre, longe de mim chamar-lhe polícia... ou gnerrre... Não se amofine!
Sem polémicas saúdo acima de tudo a fotografia da "Ginjinha" - que imensa saudade. Viva o Eduardino
Afixado por: maschamba em fevereiro 8, 2004 01:00 PM