Chamo-me Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasci em Braga, a 11 de Março de 1940.
Cheguei a Moçambique há 30 anos.
Alba era uma canção provençal. Culminava com a despedida dos dois amantes, ao amanhecer. Um dos primeiros poemas que escrevi tinha o titulo “Eu, a canção”. Escrevo com terrível dificuldade: rescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se.
Sebastião Alba rabiscou o texto acima, à laia de apresentação, aquando da publicação do livro de poemas “O ritmo do Presságio”. Passou-se isto no ido 1981. Pouco tempo depois veio embora de Moçambique. Nunca a ninguém contou o que lhe ia na alma para abandonar a terra da serenidade – como lhe costumava chamar. Voltou ao ponto de partida. Optou – palavra demasiado fria para catalogar a vontade do poeta – por viver na condição de vagabundo das estrelas na cidade dos arcebispos. Continuou a escrever mas sem publicar, quem iria publicar um sem abrigo. Visitava os filhos com os quais nunca quis viver. Já neste século encontram-no morto na rua, na sua casa melhor dizendo!
Fim de poema
Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.
Sebastião Alba
do livro “A noite dividida”
Tive o prazer de o conhecer, ainda que brevemente. Numa viagem de comboio entre Braga e Lisboa, vinha eu a ler as 'Vinhas da Ira' e ele obrigou-me a ler a última página. Foi o início de uma grande conversa no bar do Intercidades. Meses depois falecia em Braga...
Afixado por: Maria em fevereiro 10, 2004 05:29 PMApenas algumas correcções; crítica construtiva.
Houve alguns livros publicados enquanto Alba estava na rua: O último publicado em vida ainda teve as suas provas revistas por ele próprio em casa do amigo Vergílio Alberto Vieira.
Ele ia constantemente a Lisboa visitar as suas duas filhas, Sónia e Neide.
E por fim, ele não foi encontrado morto na rua, ele foi brutalmente assassinado por um condutor em Braga, ao atravessar uma via rápida sem usar a passagem aérea. O condutor pôs-se em fuga e nunca foi identificado para assumir a responsabilidade dos seus actos. A sua consciência o julgará.
Sebastião Alba costumava dizer que a sociedade dava com uma mão para tirar com a outra. Tinha que desapreender o que lhe tinham ensinado... não era para ele, a vida confortável com ar condicionado, cartão de crédito, comprar o jornal "A Bola" todos os dias e ver o Preço Certo... como muitos hoje em dia que fazem desses rituais os seus rituais de sobrevivência. Porque não vivem.
Sebastião Alba era uma pessoa de uma cultura profunda e um génio poético ímpar, porque único.
Agradeço-lhe a homenagem e espero que venha a descobrir mais sobre ele, aconselho-lhe o livro "Albas" da Quasi, de 2003.
Não se irá arrepender.
Uma abraço.
Afixado por: José Leitão em fevereiro 18, 2004 05:14 PMSó agora conheci Sebastião Alba, mas é como se já fosse amiga dele para sempre. E acho que vou ser. Acabei de ler "Albas". Ou melhor, não acabei, porque me dá vontade sempre de abrir uma qualquer página e deixar-me ir, vida a dentro.
Obrigada, Sebastião Alba.