Ontem, 2 de Fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias. Santa padroeira da Vila de Mourão. Três dias de vigorosa festa em que por uma vez não se olha à carteira. Portas escancaradas para facilitar o corrupio pelas mesas fardadas com toalhas de linho, subjugadas pela fartura de doçaria e outras comedorias que mais puxem pela pinga e de carreira pela alegria. E ala que se faz tarde para a tourada do boi do povo que, depois de sacrificado e esquartejado, há-de dar forças para mais um ano a mourejar. Com uma fé que vem do fundo do tempo, num silêncio conhecido desde o parto, aqui e ali adoçado pela música religiosa, o ajuntamento serpenteia pela vila acompanhando a Senhora. É o momento da expiação e da redenção anual dos mouranenses.

Não há mouranense que se preze, que não esteja presente do primeiro ao derradeiro minuto desta festa ancestral. Os que andarilham pela diáspora, nem que seja a pé, mas nem pensar em faltar na festa da sua santinha.
Dá que pensar a postura desta gente. Uma achega magistral para desatar este nó, deu, em tempos já idos, o saudoso amigo Pedro Ferro.
Muitos teimam em ver no Alentejo uma terra árida de religião, sem a capacidade da fé e o chamamento do misticismo. É falso. O alentejano tem a fé dentro de uma carteira de plástico. O alentejano é o único ser do mundo que, sem conflitos existenciais e ideológicos, é capaz de trazer na carteira, ao lado Bilhete de Identidade e da licença do rafeiro, o cartão do Partido Comunista e uma gravura de Nossa Senhora das Relíquias.
Abrir a carteira do alentejano é descobrir-lhe a própria alma. É desvendar-lhe as entranhas. Na carteira do homem das planícies está, como rã dissecada no mármore do bioquímico, a revelação de uma fé maior. O alentejano acredita “haver alguém a mandar nisto tudo” – e alarga o gesto a abraçar o mundo. Mas Deus não é para ele figura de altar. Deus é o que o alentejano sabe estar no crescimento do trigo e na fartura do azeite. Sóbrio em tudo, também na relação com o metafísico, o alentejano é avaro de exteriorização. Deus: questão que o alentejano tem consigo mesmo.(...)
Lembro ainda um interessante pormenor relacionado com o dia de Nossa Senhora das Candeias. Diz a sabedoria das gentes do campo: se as candeias rirem o inverno está dentro, se as candeias chorarem o inverno está fora. Ou seja: se não chover o inverno está para vir, se chover o inverno já passou.
Ontem, esteve um dia lindo, luminoso e aconchegado.
Mais uma vez lhe escrevo não para o felicitar por este texto, mas por todos os outros que com prazer vou lendo. Aliás, configuram um arquivo de inegável importância histórica, antropológica, etnográfica do nosso Alentejo. Conheço perfeitamente os temas de que fala, até sobre aqueles figurinos armados em soldadinhos de chumbo, que infelizmente foram estruturando (digo estruturando) a nossa História. Esses ultramontanos que em nome da Pátria, ao ponto de continuarem celibatários para que o historicismo reacionário os case com ela - a Pátria (é verdade não casaram entre a espécie para casarem com a Pátria). Foram alguns, desde o fanchono do Infante D. Henrique, o Sebastião, O Botas de Santa Comba, e agora essa ave rara que parece uma POUPA (quando era moço diziamos que faziam o ninho com "merda") do Portas.
Um abraço... e sempre Alentejanando!
Gostei da posta e do comentário...
Parabéns!
Um abraço,
Francisco Nunes
ai que consolo!Mourão
Já lá na vou à montes de tempo, mande aí um abraço à Marizé sff :)))
O meu pai é da Granja, grandes terras, grandes vinhos:) grande tudo!!
(cada vez tou mais lamechas quando se trata do Alentejo)