
Drogaria Martins e Matta, rua João de Deus, Évora
Photo Eduardo Nogueira – 1940
O Fernandinho escorreu a vida sempre Fernandino. Ao casamento, com ou sem papeis, sempre disse nada. Daí o ensejo do amparo da casa maternal lhe ter conservado o chamamento de menino. O Fernandinho aviou, debaixo dos arcos, ao balcão da drogaria Matta, uma siderurgia inteira de porcas, parafusos e outras conveniências. Tinha uma paixão o celibatário Fernandinho. Uma paixão que nutria no Salão Central pela época das rijezas, no Éden Esplanada pela época da amenidade. O projeccionista do cinematógrafo, esperava pelo Fernandinho tal e qual os actores de teatro aguardam pelas pancadas de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière. Tinha um vício o solteirão Fernandinho. Acto seguinte ao cenório encaminhava-se para o Café Arcada, ali à Praça do Geraldo. Um uísque saloio, servido com a prontidão do empregado mais à mão ou mais ou pé. Sempre de pé, ao fundo do balcão onde este fazia um gaveto, alimentava o Fernandinho o vício com a precisão de um relógio suíço, enquanto debicava e soletrava as noticias do Século.
Depois, ia dormir na companhia da solidão. Depois, das nove às sete, aviava polegadas intermináveis de roscas, na espera de, na hora a que saem os gatos, defrontar a paixão e o vício.
Quantas vezes se emocionou ao ver a sua própria vida projectada no Salão Central ou no Éden esplanada?
Nunca mais ouvi a voz aflautada do Fernandinho. Certamente morreu, quando igualmente se finou o Brandy Constantino que, em parceria com a água de Castelo, lhe temperava o uísquezinho saloio.
E quantos Fernandinhos, quantas solidões, viajam por esta vida assim, afogando vidas de cinema no uísque saloio...
Bonito!
Um abraço,
Francisco Nunes