janeiro 11, 2004

Branca e de xisto

(Este texto está datado, foi esgalhado ainda o Guadiana corria livre sem a prisão do Alqueva. É talvez a crónica de uma morte anunciada, pelo menos deste antigo trecho do rio. Interessante o facto, de ainda hoje, os mouranenses, continuarem a referir a Guadiana ou a ribeira e nunca o Alqueva. Estão ainda no período de nojo. Eu, respeito o seu luto!)

Falam do grande rio do sul no feminino, menorizando-o carinhosamente na hierarquia dos cursos de água. É a ribêra ou a Gudiana. É assim na Vila de Mourão, tratam o seu rio com o mesmo enlevo que dão a um filho, que mesmo depois de grande será sempre o meu menino. No feminino, possivelmente pela via da subconsciente simbologia maternal da mãe-de-água, do grande útero paridor de vida, que ao mesmo tempo dessedenta e contrabalança a rudeza do sequeiro.
Sempre gostei desta Vila raiana, branca e de xisto, onde a estética já se confunde com a da vizinha Espanha, até nas gelosias, que por pudor dos olhares dos de fora e defesa do inclemente calor, cobrem as janelas de sacada. Terras da margem esquerda, de solos delgados com os ossos de pedra lascada à mostra, mas também de campos de vinhedos, olivais e amendoeiras, berços de belas pingas, finos azeites e não menos gostosa doçaria. Basta-nos rebuscar no sabor memória, a encharcada e a meloa, obras-primas da guloseira. O Joaquim Maria, Mouranense dos sete costados que o diga.
Mas voltemos ao grande rio do sul, ou mais carinhosamente à ribêra ou Gudiana se preferirem, pois é dela que sai a matéria-prima que constrói a conversa de hoje. A atracção pelo rio é também ditada pelo valor dos seus frutos, e destes, é rei e senhor o saboroso barbo, peixe que alguns menosprezam à conta das infinitas espinhas, mas que os adoradores contornam com a tarimba da sabedoria. Atentem no facto de os adoradores privilegiarem sempre a parte da cabeça, ao contrário da normal preferência pela parte do rabo. Neste caso é no cachaço do peixe que está o lombo sem osso. E quando grandes, a cabeça são sustento para o entretenimento de comedor iniciado. É esta caldaça engrossada com farinha, cortada com vinagre e aromatizada com condimentos silvestres da região, uma verdadeira obra-prima no mundo das sopas alentejanas.
E já agora que falo do grande rio do sul, cumpre-me o dever falar dos heróicos pescadores das horas vagas mas camponeses de tempo inteiro. São eles, nas suas barcas (novamente o feminino do barco), de desenho muito próprio e por suas mãos construídas, os captores desta variedade de ciprinídeos baptizados de barbos pelas barbilhas que possuem e os caracteriza. São estes corajosos homens que, por vezes sem nadar saber, se aventuram no rio como outrora se aventuravam nas searas de trigo para colher o necessário sustento.

Guadiana.jpg
(O pescador, o barqueiro, a barca, a tarrafa e o Guadiana)
Photo de José Manuel Rodrigues


Açorda de peixe do rio à moda de Mourão
1 cebola
3 dentes de alho
½ ramo de salsa
1 molho de poejos (há quem prefira secos)
1 molho de hortelã da ribeira
1 folha de louro
1 tomate (polémico, mas eu gosto)
8 colheres de sopa de azeite
2 kg de barbos (com tamanho bem acima da medida legal de captura)
3 colheres de sopa de farinhasal q.b.
vinagre q.b.
pão duro (fatiado fino)

Para uma panela de barro (de preferência), verte-se o azeite, e deita-se a cebola picada, os alhos esmagados, a salsa picada, o tomate picado, os poejos, a hortelã da ribeira e a folha de louro. Em lume brando deixa-se refogar lentamente, mexendo sempre com uma colher de pau (artefacto actualmente proscrito por lei). Quando a cebola estiver lourinha, verte-se água que chegue para o caldo. Deixa-se levantar fervura e cozer um nadinha.
Numa tijela, adiciona-se água fria à farinha e faz-se uma papa, acrescentando-lhe umas colheres do caldo da cozedura. De seguida verte-se este preparado na panela, mexendo sempre para não engranitar, deixando-se cozer até engrossar.
Devido ao peixe ser de água doce, deve levar uns cortes no lombo, salgado-o com antecedência de molde a ganhar gosto. Introduz-se inteiro na panela, cozendo lentamente até ao ponto. Salga-se o cozinhado a gosto e tempera-se com um farrapinho de vinagre.
Quando pronto, verte-se o caldo por cima das sopas falquejadas que previamente se cortaram para uma terrina.

Com um branco da zona por companhia, resta-nos atacar a açorda que é de chorar por mais.
Para posterior aconchego dos interiores, ataquemos um dos doces da zona, ou, no caso de ser mais amante de fruta, também vai um melão da Amaraleja.
Um cafézinho e uma aguardente no Café Pipas, ali na Praça Central, levam à prostração absoluta. E, já agora, enrolemos um tabaquinho de onça para fazer tempo para a próxima pescaria.
Que a Senhora das Candeias continue a proteger Mourão e o Grande Rio do Sul.

Publicado por machede em janeiro 11, 2004 09:34 PM
Comentários

Bonito texto, sinceramente, e obrigado pela receitinha. Já gravei e vou experimentar.


Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: Zecatelhado em janeiro 11, 2004 09:38 PM