Festa é festa e a consoada sempre foi motivo para alargar os cordões à bolsa. Era caso para aprovar um avio melhorado. Lá ia a mulher, passo contente, a caminho da loja da aldeia. A filharada ainda teimava em vir até à extrema da herdade, mas que remédio senão recuar para o monte, caso contrário, era certo e sabido que dava pedinchice de rebuçados de meio tostão. Voltava a mulher com a alcofa atulhada de mimos e era o cabo dos trabalhos para afastar o cacho de gaiatos que queriam dar fé das novidades. Como a jorna não estica, as lambarices eram um bocado ralas – umas broas de mel, uns rebuçaditos e uns chocolates para as prendas do sapatinho. Faltava um bolito que desse para acompanhar com a garrafita de anis. Sempre alegrava a goela da rapaziada que se haveria de sentar junto da chaminé, a cartear uma bisca lambida. Não é tarde nem é cedo, então os condutos da matança não haveriam de dar substância a uma guloseima caseira? Da massa de pão e das vitualhas porcinas, transformadas pelas mãos da mulher, nasceu um belíssimo bolo de torresmos que alegraria a consoada da família.
Ia e vinha a mulher, a pé, de alcofa na mão, às compras na aldeia, enquanto no seu mesmíssimo tempo e mundo mas bem ao largo da sua preocupada sobrevivência, o cineasta Stanley Kubrick especulava no écran, um futuro, já ali no 2001, de aventuras espaciais com outros mundos. Este passado da mulher e do filme do Kubrick, está a um recuo de tempo de apenas três décadas e mais uns pares de dias. Coisa de pouca monta se comparado com o desvario tecnológico de então para cá e que a ficção cientifica do Stanley nos induzia a suspeitar.
Nesse tempo, com uma barba rala de imberbe cinéfilo, extasiava-me com tanto futurismo ao mesmo tempo que convivia com uma realidade feita das vidas de tantas e tantas mulheres igualzinhas aquela que, pela consoada, se permitia fazer um avio melhorado na loja da aldeia. Nesse tempo em que também me sentava na chaminé do avô Isidoro a vê-lo cartear biscas lambidas entremeadas de cálices de aguardente. Em que os rebuçados de meio tostão serviam para acertar o troco do avio semanal e, os homens do campo usavam botas de atanado e capotes aguadeiros em vez de galochas e impermeáveis de borracha.
Nesse tempo em que o meu pai fazia contas numa máquina de ferro, movida à força de manivela, enquanto noutras terras o mundo pulava e avançava. Paris, cobria-se de barricadas e revolta estudantil enquanto sacralizava Guevara ao som de Bob Dylan. Em Praga, os tanques soviéticos violavam a primavera. Em Buenos Aires, García Márquez acabava de lançar Cem anos de solidão. Os Beatles retiravam-se de cena, depois de se terem tornado num símbolo de várias gerações e de encostarem às cordas o rock and roll americano. No Vietname, a coisa começava a ficar preta para os américas, ao mesmo tempo que se viam livres, a tiro, do insolente Luther King. No nosso jardim à beira mar plantado, Marcelo Caetano substituía um já virtual Salazar e dava início à evolução na continuidade. Na mesma linha de continuidade os jovens continuavam a embarcar, cantando e rindo, para a guerra colonial.
Eu, abnegado insurrecto do reviralho, fazia figas e outras coisas mais para derrubar a primavera marcelista, enquanto ruminava uma sociedade de felicidade plena anunciada lá por alturas do 2001. Calendário esse que, somente esperava concretizado para de aí a muito tempo. Só mesmo depois de estatisticamente os maus serem residuais face aos bons.
E pronto, vertiginosamente aqui cheguei à beira do novo século, apenas com as certezas de que afinal ter aventuras no espaço não será coisa do meu tempo, que os maus continuam na mesma se não mesmo piores, que continuo a gostar imenso de bolo de torresmos e que ainda há mulheres que apenas fazem um avio melhorado pela consoada. Outras, nem isso!
Bolo de torresmos
1 kg de massa de pão
400 gr de torresmos
8 ovos
600 gr de açúcar
raspa de 1 limão
canela
banha
Na padaria, adquire-se a massa de pão. Na máquina de picar passam-se os torresmos. Envolve-se a massa de pão com os torresmos picados, os ovos, o açúcar e a raspa de limão. Depois de misturar convenientemente o preparado, verte-se num tabuleiro de ir ao forno previamente untado com a banha. Polvilha-se com canela.
Leva-se a cozer no forno até ficar bem corado.
Tenho como lema: o belo é o simples. Daí que afirme: este bolo é a prova provada da simplicidade da cozinha da planície.
Cá com o XXI!
do livro “Alentejanando”
ou como um sabor simples, vincado no seu espaço voa atravez do tempo sem perder as raizes, aterra finalmente num HTML transporte até tela minha, num Aveyron estranho, me fazendo lembrar outro sabor este, numa terra longinqua, um dia provado, o do mel ao azeite misturado, neste sabia mistura da vida que pensa as feridas.
Afixado por: Jovite em dezembro 17, 2003 04:05 PMai que saudades de bolo de torresmos... :)
Afixado por: Columbiana em dezembro 17, 2003 11:08 PMIsso é que é um blogue de 'fazer crescer água na boca'.
Um abraço,
Francisco Nunes
Revejo-me em partes disto tudo. Foi bom, mesmo bom. Para mim o artigo do mês. Continua.
Um abração do
Zecatelhado