
É nesta altura do ano que fico num equilíbrio precário. Fico descompensado. Só me apetece arrumar as meias a um lado, as cuecas no outro, e bazar na gáspea para as bordas do Índico. Coisas sentimentalonas de um coraçãonito afro-alentejano – eu sei que isto é uma máquina de bombear sangue e não sentimentos!!!!
Por mou da falta de tempo e do vil metal resta-me prantar no prato um vinil do Fany Pfumo, ligo o aquecimento no máximo, dispo-me em pêlo, enrolo na cintura uma garrida capulana e rebobino a memória. A música da Gazalândia toma conta da casa e de mim.
O doce odor inebriante das massalas maduras nos matos de Chicualacuala. O som longínquo e minimal do pilão na Vila de Mutuali. A mística das missangas nos longilíneos pescoços das belas mulheres da Ilha de Moçambique. As tangerinas de Ilhambane amontoadas em geométricas pirâmides na beira da estrada de Homoíne. O êxtase dos tambores nas noites de Changara. O grito das acácias e dos jacarandás nas ruas de Maputo. Os vicejantes verdes das machambas do vale do Xai-Xai. As ritmadas timbilas no Msaho do Tunduru. A viola de lata nas mãos do menino solista da Mafalala. O Machimbombo vergado sobre o peso de um mundo de haveres a caminho do Chibuto. As mamanas garridas com o avio das necessidades no batelão do Zambeze. O cheiro intenso dos frutos do caju espremidos pelas mãos da mãe do Darsam na machamba da Matola.
A voz do Fany cantou a Georgina na última volta do vinil. Abeirei-me da janela. Chove uma fortíssima bátega. Está frio, o frio eborense dos Dezembros. Da cozinha vem o cheiro do alho e do coentro a serem pisados no almofariz. Hoje é uma açordinha com bacalhau. Sempre gostei dos odores fortes. De cá e de lá!

Cá recebemos agradecidos e atentos a sua lição.
Bom apetite para a açorda.
Outro prato, como sabe, com múltiplas variações de tempero de casa para casa e de família para família.
Viva o alentejo!
Um abraço,
Francisco Nunes
Maputo:
4ª feira céu nebulado, minima de 21 e máxima de 25,
5ª feira, céu limpo, minima de 22, máxima de 31, 6ª feira, céu limpo, minima de 22, máxima de 33.
Nesta altura não cacimba.
Afixado por: António Carrilho em dezembro 10, 2003 10:27 AMRealmente só quem "viveu" esse hambiente Africano
lhe pode atribuir o seu real significado.
Sao vivencias que nos marcam e dificilmente se
esquecem.
Um Kanimambo de um Moçambicano mais, em vésperas
de regressar aquelas belas paragens !
Humberto Filipe
Tantas saudades meu Deus...
Como diz o amigo Humberto Filipe e muito bem, só quem lá viveu é que lhe sabe dar o devido valor
Como sonho lá voltar um dia...
Zé Carlos
Por momentos, senti-me viajando no passado, revivendo a juventude distante e saudosa.
Parabéns, pleo conteúdo, mas também pela forma. Oteu texto tem côr, tem odores, tem movimento....tem vida.
Kanimambo!
Recordar é viver e como é bom lembrar!
Afixado por: Conde em fevereiro 17, 2004 05:18 PMLi há tempos um livro sobre Lourenço Marques, escrito por alguém que recolheu entrevistas mas não esteve lá. Acabei de ler o livro com a sensação dum galinha à cafreal sem piri-piri...
Sal e piri-piri é o tempero que não falta nesta crónica que me faz sentir feliz e esperançado em ler mais ...
Kanimambo
JSoares
oi, sou mocambicana residente na Noruega. Gostaria de obter musica e dados de Fani Pfumo. Alguem pode me ajudar? Bjinhos,
Melita