dezembro 01, 2003

À noite, com Mingus e Zorn

(O patrão foi dar uma curva à estranja. Assim, para além do encargo de guardar o monte, fiquei também com a possibilidade de bolinar no Alentejanando. Com algum descuido mas aí vai roupa...)

Mingus.gif

Tu disseste, "vejo uma imagem clara do que já fui, onde? não sei ao certo, talvez na nonagésima poça de água que vislumbrei ontem a caminho de casa, vi altos e baixos, o reflexo da Casa de Mingus. Curiosamente um transeunte passa por mim com um contrabaixo às costas e pede-me lume, forneço-lhe o meu último fósforo e pergunto se porventura sabe tocar alguma coisa de Mingus? O rapaz olha-me fixamente, olha à sua volta, acende o cigarro e responde-me – "esse, existem poucos como ele – no Jazz e fora dele, a forma como passeia os dedos nas cordas, sim! tento escutá-lo a toda a hora, a verdadeira melodia do pensar.., não sei se me faço entender?" mudo, pensativo despeço-me desejando um bom dia a todos os ouvintes da rua e desapareço. Seguindo por uma rua estreita penso que penso, deixo-me, levanto-me do chão, não quero mais pensar, a agressão a que fui submetido deixou-me teso, sem trocos para ir beber um café, porra, chiça, vou ao Príncipe apanhar ar e logo se vê! Não me posso tornar num pedinte! Pedintes e invejosos há muito que existem em todo o lado, o lado negro da lua, esse deixo-o para o homem mau, esse inventor nato. No outro dia fui ao supermercado comprar salsichas frescas, e quando cheguei deparei-me com uma fila de gente à porta, fui ver o que se passava, um senhor diz-me que um rapaz se encontra lá dentro armado com um contrabaixo a tocar junto à secção dos legumes frescos e enlatados, e por isso a policia está a tentar expulsá-lo.
São quase dez da noite, o filme acabou, levanto-me do sofá e desloco-me à cozinha a fim de preparar um café, no caminho ouço um pequeno barulho, passo djô, não me interessa, deixei de fumar, agora só fumo cigarros de mentol, prossigo a minha busca por entre armários cheios de tupperwares, abro uma porta e deixo cair uma caixa amarela no chão, adapto-me à situação ao mesmo tempo que cito uma frase de um outro filme – "O importante não é a queda mas sim a forma como se aterra!" duas colheres de açúcar, redemoinho e pronto, o café está na mesa, "mudo o canal e mudo de vida", penso eu! Rapidamente desloco-me à varanda e vejo-a a olhar para mim sempre com aquele olhar triste, a lua essa bola branca que nos observa à noite a nós, a todos aqueles que habitam a cidade e que gostam de John Zorn a meio da noite depois de se deitarem, de fazerem amor e de secarem o suor do corpo à janela numas noites de Verão indizíveis ao espirito, apenas a matéria, a polpa e circunstância das coisas ainda por definir," o café está estragado, pus pouca água". Nessa noite sai e nunca mais voltei, se calhar comecei a fumar S.G. Gigante outra vez!

Fred

Publicado por machede em dezembro 1, 2003 02:25 PM
Comentários


com mingus
bom. e elitista - qual é o problema ?
quem não tem cabo ou wireless que se lixe no bolinar. Eles é que perdem - senão fizerem as contas da telefonia.
por mera coincidencia, abandonei uma connection velha de 10 anos. Troqueia-a por cabo.
estamos no surf fred

Afixado por: bamboo em dezembro 1, 2003 05:51 PM

bem achado ó Fred; tens que fazer a meias com o teu velho!
joão

Afixado por: joão em dezembro 1, 2003 06:55 PM