novembro 18, 2003

O DIREITO À PREGUIÇA

O mês de Dezembro trás quase sempre à arreata as primeiras friezas sérias. Este semblante sisudo do frio dá-me uma enorme vontade de recorrer aos bons ofícios da fada madrinha para que me remodele em gato. Apetecia-me ronronar junto do aconchego do borralho sem que inevitavelmente fosse taxado de malandro, coisa que apenas acontece aos racionais e não aos gatos. Sempre achei uma perfeita insensatez aquela leviandade do Adão ao abocanhar a maçã! Uma dentadinha na maçãzita e lá se foi o paraíso eterno.
Mas bichanando novamente. Ainda por cima, vai não vai, têm direito a umas festas na lombada e a umas lérias ternurentas. Às quais, nem se dão ao trabalho de responder, mordomias de gato. Este direito de não resposta, este – espera aí que eu já te aturo - também me começa a aliciar sobremaneira. E pronto, por mais surreal e bestiário que vos pareça, esta ambição felina volta todos os invernos, cada vez mais forte, como se crescesse paralelamente proporcional ao escorrega da vida.
À laia de conversa cruzada, mas na mesma linha do louvar a mandriice, veio-me há cabeça o Paul Lafargue, um moço que foi genro do Marx devido a ter dado o nó com a sua filha Laura. Não sei que por carga de água, possivelmente por ter um discurso escorreito, o certo é que representou a Espanha e Portugal na Internacional de Haia. Muito oportunamente, este avisado moço, escreveu «O direito à Preguiça». Obra que não caiu no goto das severas nomenclaturas bolcheviques por não condizer com a moral proletária. É pena, pois caso tivessem dado ouvidos ao Lafargue, e acatado a legitimidade da preguiça, talvez hoje a seca da responsabilidade de ganhar para a papa fosse menos seca. E à sua maneira tinha redimido a inconsciência do Adão. Segundo consta, pôs termo à vida em 1911 com receio da senilidade, ou se calhar, porque estava farto de dar ao dedo para sustentar a famelga.
É também nesta altura do calendário que não me importo de ser anafado. Dá um certo jeito ter uma boa manta! É confortável. Inclusivamente, a tradicional bonomia dos gordos contribui imenso para compensar o cinzentismo dos dias. Mas a propósito de gordos, aliás, mais fortes, toca mas é a não descurar a necessária manutenção da linha, tratando do sustento que a sustenta.

Entrada de pasta de fígado
1 fígado de porco
1 molhinho de salva
1 raminho de rosmaninho
2 cebolas
1 dl de azeite
50 gr de manteiga
3 dl de vinho
1 folha de louro
sal

No azeite refoga-se o fígado cortado conjuntamente com os cheiros, a cebola e o louro. Quando a cebola quebrar, junta-se o vinho a pouco e pouco, deixando estufar até o fígado estar bem cozido. Transforma-se o preparado numa pasta juntando a manteiga derretida, de forma a ligue bem e fique macio. Serve-se barrado em quadrados de pão levemente torrado.

Norte Alentejano.jpg
Cação à moda do norte alentejano
1 kg de cação
8 dentes de alho
1 molho de coentros
1 dl de azeite
100 gr de nozes
vinagre
sal

Amanhe o cação e corte-o em postas de dois dedos. De seguida deixe-o submerso em água e vinagre por um par bom de horas. Num tacho de barro, deite o azeite, os alhos picados, os coentros e as nozes antecipadamente picadas na máquina. Deixe refogar levemente, deitando de seguida um pouco de água. Assim que levantar fervura, introduza o cação, corrija o sal e deixe cozer bem. Serve-se por cima de sopas de pão fatiado.

Laranja em mel e azeite
5 laranjas
2 dl de azeite
2 dl de mel

Descascam-se as laranjas e cortam-se às rodelas finas. Aquece-se o mel e mistura-se com o azeite. Põem-se as rodelas de laranja a marinar neste preparado por um bom par de horas.

Dado a frieza reinante, aconselho vivamente que se abram as hostilidades no ataque às comedorias junto da lareira. Sempre é mais confortável. O vinho e os digestivos, hoje, são da vossa lavra. Cuidado que o calor faz trepar os álcoois.
Engordem, tornem-se confortáveis e formosos.
lareira.jpg

Publicado por machede em novembro 18, 2003 10:50 AM
Comentários

Divinal cozinheiro,é não é!!!??? a laranja com azeite é de mestre.
Qualquer dia mudo-me para aí!

Afixado por: Lambuza em novembro 20, 2003 02:37 AM

A escrita e a grastronomia é impecável!
Relativamente ao Paulo, matou-se porque devia estar farto de aturar o sogro.

Afixado por: Helena em novembro 20, 2003 02:46 AM