novembro 10, 2003

Os Fariseus da comissão europeia

Segundo consta, os fariseus da comissão europeia estão novamente numa onda moralizadora contra as tradições regionais. São cíclicas estas campanhas ferozes contra a diferença.
Eu, continuo-lhe a alçar um competente manguito que, desta vez, se metamorfoseia num texto que escrevi aqui há já um par de anos.

Nutricituacionistas

Para que conste: o actual conjunto de pessoas encarregadas de tratar em comum dos assuntos da União, vulgo Comissão Europeia, decidiu, profilacticamente, antes de ir a banhos que, após a rentrée, ou seja quando a carneirada voltar a dar à mola que, jamais qualquer cidadão dos 15 poderá pensar em utilizar na alimentação animal, racional ou não, o crânio, as amígdalas e a medula espinal de bovinos, caprinos ou ovinos que apresentem idade superior a um ano. Em Portugal e no Reino Unido (olha que duo), estão igualmente banidos a cabeça inteira, o pâncreas, o baço, os intestinos e a coluna vertebral dos mesmos animais, só que logo após os seis meses de vida. A draconiana decisão tem a ver com a prevenção contra a BSE. E não tinha lá muita piada que os digníssimos cidadãos da circunferência das estrelas, trocassem a massa encefálica pela massa espongiforme, não é que para um razoável número (sempre fui um optimista), a esponja não desse mais jeito. E pronto, tá dito tá dito!
Tá dito, uma ova! Lá que regulamentem os Britishs, vá que não vá que os moços são mais para o steak. Os Italianos é que não devem gostar lá muito do filme, já que sem o seu osso buco a coisa fica uma porca miséria. Agora a nós, magníficos comedores de tudo quanto não se deve desperdiçar, boicotarem-nos o prazer imenso de desmontar à navalhinha, uma belíssima cabeça de borrego assada? Não dá para acreditar. Isto para não falar das tripas à moda do Porto, que não sendo comida de mouros, é comida de gente de espinha direita, e por sinal de se lhe tirar o chapéu. Não, não é decididamente coisa que se faça. E, por muito que nos queiram transformar em engolidores de latinhas assépticas, de mixórdias embrulhadas a vácuo, de mistelas enfrascadas e regulamentadas por burocratas e aconselhadas vivamente a cacete por nutricituacionistas a soldo do que todos nós estamos fartinhos de saber, nós resistimos, resistimos heroicamente sentados à mesa do nosso consolo. Por este andar, não deve faltar muito para declararem proscrita a flora intestinal.
Bom, mas já que por agora outra coisa não nos resta, nós vamos tomar conhecimento dos regulamentos, lá isso vamos porque somos respeitadores. Agora, daí a inviabilizarem-nos o deleite das nossas iguarias, nem que nos metam uma patrulha da GNR em redor de cada mesa, porque o que demais poderá acontecer, é a imediata traiçãozinha dos representantes da lei a amesendarem igualmente de navalhinha em riste.
Para que o apelo à resistência passiva seja tomado à letra, toca a espalhar aos quatro ventos a boa aventurança da alquimia necessária para meter o dente numa cabeça de borrego assada no forno.

Cabeças de borrego assadas no forno
2 cabeças de borrego
6 dentes de alho
louro
banha
vinho branco
sal

Depois de cuidadosamente limpas e cortadas as extremidades das narinas, barre as cabeças inteiras com a massa de alhos pisados, banha e sal. Esmague o louro e espalhe-o por cima. Aconchegue as cabeças numa assadeira de barro ou tabuleiro e leve ao forno a assar com calor mediano. Caso consiga em forno padeiro, está a cumprir na integra todos os requisitos. Quando a assadura se aproximar do desejável, borrife-as com o vinho branco. Deixe terminar a assadura e parta-as ao meio.

Cabecinhas.jpg

Esta comedoria sempre foi tomada por petisco. Coisa para eruditos, que entre duas goelas de cante despachavam uns nobres tintos aconchegados por umas lascas das ditas. A taberna do João das Cabeças, em Castro Verde, é um magnífico exemplo do que acabo de dizer. No entanto, se a montante das proscritas abrir as hostilidades com uma salada fria de fígado do mesmo animal, acompanhada de umas batatinhas cozidas e temperadas a fio de azeite e orégãos, pode a jusante encerrar com uma fatia de queijo Serpa, isto para que o petisco se transforme num ovialmoço. Escolha um tinto que amancebe na perfeição com estes sabores da planície. Não olvide o café, o digestivo e a pureza do puro que pode ser um Coroa Açoriano.
A bem do Sul, contra desocupação dos prazeres.

PS. A cultura de um povo não se salvaguarda por decreto, é uma verdade inquestionável. No entanto, legislar bases para a sua protecção, ajuda imenso.
A Gastronomia, componente importante e natural da identidade cultural das regiões que dão corpo ao País, que é Portugal, só se preservará genuína se continuar-mos seus amantes, e dessa paixão dermos alvíssaras! É igualmente uma premissa inquestionável.
Vem isto a propósito da resolução tomada em Conselho de Ministros, de 7 de Julho, a qual pretende “elevar o estatuto da Gastronomia Nacional” sendo que esta arte tradicional portuguesa é “um bem imaterial integrante do Património Cultural de Portugal”. Nem a propósito, anote-se a feliz contradição com a soez decisão comunitária, motivo da minha presente guerrilha. A nossa auto-estima também se constrói de pequenos nada. O meu aplauso!


Publicado por machede em novembro 10, 2003 03:41 AM
Comentários

Eles andem aí, eles andem aí mariolas.
Mas a gente não lhe dá um palmo.
Contiuna Isidoro!

Afixado por: João Patricio em novembro 10, 2003 03:08 PM

Fizémos mal em ter lido esta posta!
Devíamos ter jantado primeiro...

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em novembro 10, 2003 08:20 PM