
Neste Novembro que hoje entrou, faz quatro anos que o amigo Pedro Ferro abalou. Abalou para onde todos certamente abalaremos. Era escusado ter abalado tão cedo.
O Pedro era curto na altura, enorme na desinquietação, generoso na relação, solidário com o amigo e ciclicamente apaixonado. Belamente caiu no caldeirão da ironia quando de cueiros, daí a inesgotável pilhéria sempre na ponta da língua. O Pedro era um guardião da obra de mestre Fialho de Almeida, e era igualmente um seguidor obstinado do estilo do contador do “País das Uvas”. Era, efectivamente, um dos grandes narradores das grandezas e das desventuras desta República do Gerúndio. O Pedro foi um Homem de grandes e devotadas paixões, sendo a da constância a sua amada Vidigueira.
Aquando da sua passagem pela direcção da rádio Vidigueira, convidou-me para fazer um programa sobre os produtos alimentares do Alentejo. Eu, impus condições e, entre elas, a da escolha do nome do programa. E o Pedro inquiriu: então e qual é o nome? Maroto, disse-lhe: é pá, inevitavelmente tem de ser “alô alô Vidigueira”. O Pedro escancarou o sorriso, meneou negativamente a cabeça e disse-me: é pá, queres desgraçar-me a reputação!
À laia de justo tributo, transcrevo um pequeno texto que publicou, no dia 9 de
Outubro de 1995, no jornal Público.
«Porque sim
Fazer da cal o bilhete de identidade. Comer o primeiro u de Augusto. Às Marias
chamar Bias. Petiscar ao fim do dia. Acreditar em Deus e no Partido Comunista. São coisas dos alentejanos.
Explicar Deus como “alguém que manda nisto tudo”. Casar pela Igreja. Baptizar os filhos. Ser indiferente à missa. Não faltar à procissão. Cantar ao menino pelos Reis. Chamar magana à morte. Dizer dos familiares que morreram: “o meu pai que Deus tem” ou “a minha Joaquina que Deus tem”. Tirar o chapéu diante do cemitério. Crer em virtuosos (bruxos). Temer as trovoadas como os gauleses do Astérix. Benzer o pão antes de entrar no forno. Não derramar azeite. São coisas de alentejanos.
Estar apaixonado quando está triste. “Andar atrás de” quando está apaixonado. Chamar boda ao casamento e ao copo d’água função. Anteceder os nomes dos filhos do pronome possessivo meu ou minha: o meu João, a minha Ana. Da mulher dizer apenas “a minha”, ignorando-lhe o nome. Não ter trambelho para os trabalhos domésticos. Enforcar-se quando se vê viúvo. São coisas dos alentejanos.
Ver cair a geada. Chamar charoco ao frio e busaranho ao vento gelado. Dizer que está aspereza quando há temporal. Ao Sol chamar “o astro”, como se fosse o único no céu. Ao calor chamar calma. Viver com o Suão. Chamar às planuras descampados. Cerros aos outeiros. À floresta arvoredos.
Olhar o horizonte e saber ter vagar. Dizer: estou à espera de me ir embora. Declarar com solenidade: devagar que tenho pressa. Abalar no comboio da Cuba. A Lisboa chamar aldeia grande. Ter parentes na Brandoa. São coisas dos alentejanos.
Estar de roda do lume. Sentar no chão para conversar. Parar no largo ao olhinho do sol. Ter sempre a navalhinha petisqueira no bolso das calças. Condutar o pão, o vinho e a vida. Beber só em companhia. Cantar quando os outros também cantam. À seca chamar desgraça. Querer a barragem do Alqueva. São coisas dos alentejanos.
Porque sim.»
Simplesmente bonito!
Afixado por: Dizer Bem em novembro 2, 2003 12:59 AMBonito
Afixado por: Planicie Heróica em novembro 2, 2003 02:59 AMFoi bom encontrar um blog a assinalar a morte do Pedro. Cada cronica, texto ou reportagem do PF valia bem mais do que todo o discurso oficial, oficioso, oposicionista ou intelectualóide que por aí grassa. E para quem duvida que o PF foi um dos grandes escritores do Alentejo (mostrando a cor da sua alma e o jeito das suas gentes) aí estão os textos reunidos em livro, por iniciativa do José Luís Jones e de outros amigos. Um espanto.
Afixado por: ma em novembro 4, 2003 11:28 AMobrigada pelo texto ...simples e delicioso, como o pão com azeitonas de que tanto gosto.
Afixado por: miamel em novembro 4, 2003 07:37 PM