outubro 30, 2003

O HOMEM QUE PLANTAVA ÁRVORES

Política florestal sustentada... ordenamento florestal... foram sempre assuntos que puseram os responsáveis a assobiar pró ar. A não ser a brilhante ideia do “petróleo verde” do inteligente Mira Amaral, que descaradamente incentivou a eucaliptização. Tal como outros, do antigamente ao actualmente, já tinham feito a mando das omnipotentes celuloses. No que respeita ao Montado, então a coisa ganha contornos de crime público. Para além da vital importância da floresta mediterrânica no combate à desertificação deste imenso sul, até parece que a cortiça não é um produto estratégico e que não somos os maiores produtores mundiais. Mais que não fosse, pela auto-estima de sermos importantes nalguma coisa?
Depois da onda calamitosa de incêndios que deixou a irresponsabilidade completamente nua, foi uma correria de promessas e, entre elas, a bazofiada criação de uma Secretaria de Estado das Florestas. Para a dirigir, meteram a mão na viciada cartola, e eis que surge... um reputado técnico... ligado desde a instrução primária... à porra das celuloses. Na continuação da saga... o pardo Theias bispa uns documentos... Parques naturais pró das celuloses... ICN fica com a responsabilidade de contar a população de grilos... o Theias faz peito ao Sevinate e ameaça com um golpe de estado... o Sevinate embatuca e dá aos pedais... até que, por correspondência, o primeiro Barroso manda dizer que tudo como dantes quartel-general em Abrantes. Especulo que, nesta balbúrdia do golpe e contra-golpe, o reputado técnico das celuloses estaria atrás da cortina, de calculadora em punho, a multiplicar eucaliptos. Eu seja ceguinho!

Para desanuviar deste filme trágico, retirei da estante a fabulosa história do camponês Elzéard Bouffier, “O Homem que plantava árvores”, escrita com a simplicidade das coisas excepcionais por Jean Giono. Editada entre nós pela Associação Vicentina, entidade fazedora de desenvolvimento rural com sede em Bensafrim/Algarve – por desventurada coincidência, numa das zonas mais afectadas pelos incêndios do verão passado.

Livro Vicentina.jpg

«(...) Chegado ao sítio pretendido, enfiou o varão de ferro na terra. Fazia assim um furo onde punha uma bolota e depois voltava a enchê-lo de terra. Plantava carvalhos.
Perguntei-lhe se aterra lhe pertencia. Disse-me que não. Sabia a quem pertencia? Não sabia. Seria terra comunal ou propriedade privada? Ele não estava interessado nos proprietários.
Plantou as cem bolotas com um cuidado extremo.
Depois do almoço recomeçou a escolha das sementes. Fui bastante insistente nas minhas perguntas, creio eu, uma vez que ele me respondeu. Há três anos que plantava árvores nessa solidão. Já tinha plantado cem mil. Dessas cem mil, vinte mil tinham vingado. Dessas vinte mil contava ainda perder metade devido às tempestades e a tudo o que é impossível prever nos desígnios da Providência. Sobravam dez mil carvalhos que iriam crescer nesse lugar onde antes não havia nada. (...)
Fiz-lhe notar que daí a trinta anos esses dez mil carvalhos seriam magníficos. Respondeu-me que, se Deus lhe desse vida, daí a trinta anos teria plantado tantas outras que essas dez mil seriam como uma gota de água no oceano. (...)
Separámo-nos no dia seguinte.
No ano a seguir houve a guerra de 14 na qual passei cinco anos. Um soldado de infantaria não pode pensar em árvores e para dizer a verdade a história não me tinha impressionado muito. Considerava aquilo uma patetice, ao mesmo nível de coleccionar selos, por exemplo, e não pensei mais nisso. (...)
Eu tinha visto morrer demasiadas pessoas durante cinco anos para poder facilmente imaginar a morte de Elzéard Bouffier. Além disso, aos vinte anos pensamos em homens de cinquenta como velhos a quem só resta morrer. Este não tinha morrido, estava até bastante rijo. Tinha mudado de trabalho. Tinha agora só quatro carneiros e, em vez dos outros, arranjara uma centena de colmeias. Livrara-se dos carneiros que punham em perigo as plantações de árvores. Pois que a guerra, disse-me ele (e eu podia constatá-lo) não o havia incomodado; continuara imperturbavelmente a plantar. (...)
Os caçadores que subiam aos ermos, à caça de lebres ou javalis tinham reparado na abundância de pequenas árvores mas julgavam tratar-se de um capricho da natureza e foi por essa razão que ninguém tocou na obra do homem. (...)
A partir de 1920 nunca mais passei um ano sem ver Elzéard Bouffier. Jamais o vi fraquejar ou duvidar. E só Deus sabe, como até Ele próprio, por vezes não ajuda. (...)
Em 1933 recebeu a visita de um guarda-florestal atarantado, que lhe disse que tivesse cuidado com o fogo, não fosse pôr em perigo o crescimento dessa floresta natural. Era a primeira vez que se via uma floresta a crescer sozinha, acrescentou este homem ingénuo. Por essa altura já o pastor ia plantar bétulas a doze quilómetros de casa. (...)
Em 1935 uma verdadeira delegação administrativa veio admirar a “floresta natural”. Entre eles estava um alto funcionário responsável pelas Águas e Florestas, um deputado e vários técnicos. Fizeram-se discursos inúteis. Ficou decidido fazer-se qualquer coisa mas, felizmente para todos, ninguém fez nada a não ser a única coisa útil: pôr a floresta sob alçada do Estado e proibir que alguém viesse fazer carvão. (...)
A obra só correu um risco sério durante a guerra de 1939. Como os automóveis na época andavam a gasogénio toda a madeira era pouca. Começou-se a cortar carvalhos plantados em 1910, mas essas paragens ficavam tão longe de todas as estradas que a empresa não revelou qualquer viabilidade financeira. O projecto foi abandonado. O pastor não tinha dado por nada. Encontrava-se a trinta quilómetros dali, e continuava tranquilamente com a sua tarefa tão ignorante da guerra de 39 como antes estivera da guerra de 14.(...)»

Floresta 3.gif

Publicado por machede em outubro 30, 2003 03:12 AM
Comentários

No Alvo! Estamos já a ver o resto do filme, não é.
Quanto ao "O homem que plantava árvores", magnifico!
Diferente, muito diferente este blog.

Afixado por: Jorge Viana em outubro 30, 2003 03:03 PM

Exatamente, assobiam pró ar. Cambada de incompetentes.
Parabéns pela escrita, muito interessante!

Afixado por: M. Ramos em outubro 30, 2003 04:33 PM

"Ceux qui lancent les révolutions sont toujours les cocus de L'Histoire"
Daniel Cohn-Bendit

Afixado por: miamel em outubro 30, 2003 07:45 PM

Caro amigo.
Obrigado pela publicidade gratuita à casa. De facto,é sempre agradável puder às vezes dizer " como é bom dispormos de um Leaderpara cofinanciar, e assim lançar uma história tão bela como esta do Elzeard Boufffier.
E que te dizer acerca das nossas expectativas, sobre o que se poderia fazer a partir de "O Homem que plantava árvores".
De rajada....
. O Miguel Sousa Tavares vai aproveitar isto e divulgá-la
.Vamos mandá-lo ao Ministério da Educacinha. De certeza que alguém irá perceber que dificilmente haverá um instrumento de educação ambiental melhor que este.
. Mandamos tb 1 exemplar ao acontece...prepara-te Joaquim que ainda tens que lá ir e ...
. Divulgamos primeiro, a seguir editamos sem o apoio do leader e vendemos um batateu de livros ao preço de 1 maço de tabaco...Toda a gente vai comprar e com amaçaroca que fizermos podemos pagar a retenção na fonte que está atrazada...Porra " O Homem que plantava árvores a financiar o pagamento das nossa obrigações fiscais!! É demais, ao que chegámos! será que não haverá uma maneira + digna para se usar o $$ feito com uma história destas???.Bem vistas as coisas, enfim até não está mal de todo.
. Bom...No meio disto tudo, vá lá que o Teatro ao Largo ainda aproveitou a história e anda trabalhando ( outra vez o Leader, outra vez $$ tão bem empregue...Ainda bem, ao menos temos a sensação que se faz alguma coisa.

Bom e já agora sempre te conto a história toda.
Quando acabei de ler, na quinta em odeáxere, uma tradução livre, dactilografa em A4 que o meu cunhado Vasco me deu, senti-me profundamente comovido e assustado. É que há muitos anos (lá por 72/73) era eu um jovem Regente Agrícola a iniciar uma prometedora carreira na CUCA, em Angola, cheio de sangue na guelra e presunção pseudo tecnocrata e nestas andanças fui parar por uns tempos a uma fabulosa fazenda (obviamente da CUCA) no Camucuio.
Tinha 21 ou 22 anos, já me tinha escapado à tropa, porque achava eu que, se não tinha tomates para ser "turra" (era assim que chamávamos aos nacionalistas)ao menos que arranjasse maneira de pelo menos não andar aos tiros aos gajos e, naquele mato, às vezes encontrávamo-nos todos os fazendeiros no bar-pensão-oficina-bomba de gasolina e retiro de caçadores da Cacula onde tb aparecia um fazendeiro gordo, pesadão e "tosco que era objecto da chacota geral por ter plantado na sua fazenda 400 ha de Murilahondo (será ssim que se escreve??)... E eu ignorante e estúpido alinhei no gozo, não sei se estás a imaginar
- O Gajo é doido!Nem os netos vão tirar dali 1 tábua que seja..
-Com que então plantaste 400 ha de Murilahondo! Ganda negócio....
A verdade é que a nossa arrogância era tremenda. Até porque sabíamos que o dito (não me consigo lembrar do nome) tinha enricado a cortar madeira, e mesmo advinhando o óbvio- era um acerto de contas com a natureza- não lhe davamos folga na consumição
É assim que também em Angola, algures entre o Camucuio e a Serra da Neve, existe uma plantação de 400 ha de Murilahondo que -Estou certo disso- resistiu ao fogo à guerra e à insanidade e, se puder, um dia lá irei para a encontrar...
Por isso acabei a leitura do Homem que plantava árvores comovido e principalmente assustado.A única coisa que me restava fazer era Editar o conto
Duvido que sirva de alguma coisa mas PROMETO-TE QUE VAMOS MANDAR 1 EXEMPLAR AO SR SECRETÁRIO DE ESTADO DAS FLORESTAS
1 abraço

Afixado por: Pedro Dornellas em outubro 31, 2003 12:00 PM

Agradecevos por terem criado este blog. foi mito util

Afixado por: Tiago Fernandes em fevereiro 4, 2004 04:32 PM

é muito ´, não mito

Afixado por: Tiago Fernandes em fevereiro 4, 2004 04:34 PM

Ola.
desculpe, mas nao comprendo muito bem Portugues. Please, i dont understand not so much the previsous articles, but i have a one very important question. Plese, could somebody say me, where is possible to buy this book in Portugal in Portugues. I realy would like to have this book, but i still dont find any shop, where is possible to buy it. Muito obrigada. yours Eva

PS: if somebody will able to help me, please write me on me mail adress.

Afixado por: Eva Dlouha em julho 9, 2004 09:18 PM

Gostaria de parabenizar os idealizadores deste espaço, pela iniciativa de falar sobre o assunto. Gostaria de explanar que sou um fã desta historia: "O homem que palntava arvores", apesar de não possuir o Livro, mas apenas de ouvir e de ler na internet partes da historia. Por isso solicito de voces um exemplar, estou disposto a pagar as dispesas, ou então que alguem me mande uma copia digital(.doc , .pdf , etc), pelo meu e-mail: carlindo@brisanet.com.br

Afixado por: Carlindo Dias em agosto 27, 2004 02:37 AM

gostava de saber onde comprar este livro

O Homem que plantava arvores ou o Homem que semeava arvores

muito obrigado

opaz

Afixado por: jose manuel paz em setembro 17, 2004 05:56 PM

Não sabia que existia uma edição em português do "Homem que plantava árvores". Seria possível indicar-me a editora? Obrigado pela atenção

Afixado por: Pedro Silva em outubro 8, 2004 06:32 PM