Coisa que não se explica, nem agora quero já explicar. É vero que desde que tive ordem de soltura e chave na mão, a noite foi sempre uma paixão dominadora. Tão avassaladora que, por alturas da adolescência, os dedos das mãos são quantidade suficiente para contar as noites que me quedei no regaço da família.
É usual a representação simbólica “vi a luz do dia”. Eu, pus a tola de fora faltavam escassos minutos para a meia-noite, e vi naturalmente a luz da noite. Amor à primeira vista!
No meu burgo e depois nos outros mundos onde gastei a existência, sempre fiz da noite a minha dama encantada. E por ela sempre arremeti ferozmente contra o deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Antes doentiamente noctívago!
As personagens interessantes que fui descobrindo, aconchegavam-se espantosamente com a noite.

Do amigo Monarca, uma alegoria poética às mágicas noites eborenses de sessenta/setenta do século precedente, obviamente!
Vaguear aos sábados pelas travessas
discutir a vida olhando a lua –
que sonhos e promessas
espalhámos pelas ruas...
Raiva e revolta!
Que os miseráveis não têm frio.
Jogar à moeda com o Rosca para a bebida
ouvir os relatos do Perna
seguir o Cachatra pelas ruas desertas
deixá-lo falar do problema das canetas
que o actor nunca morre
o Mangas o dizia.
À ganda passarão que tu me saiste!
Afixado por: ET em outubro 30, 2003 02:57 PM[...]
de noite
o futuro afunda-se
as lágrimas escorrem
e salgam-se os cabelos
.
a vida pôs-me à prova
e esta dor prepara-me.
[...]
[Carlos Poças Falcão]
Afixado por: miamel em outubro 30, 2003 07:51 PMEstou como o Monarca Pinheiro: o Mangas, o Rosca e os outros, loucos e bêbados da minha cidade, povoaram a minha infância eborense.
Como sinto o poema! E como o tempo passa!